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Contos de fadas infantis estão alinhavados com pequenas chaves para a compreensão de um tempo em que o paganismo e a Antiga Religião eram disseminados em grande escala. A decodificação destas chaves de compreensão pode ser feita simplesmente com conhecimentos básicos daquelas práticas. Senão, vejamos...
Filha de rei num tempo em que "reis" e "rainhas" significavam altos sacerdotes da Magia, a suave Branca de Neve fora preparada por seu pai para ocupar seu lugar à época em que ele se retiraria nas brumas da Ilha. Desde tenra idade Branca de Neve revelou seus poderes de comunicar-se com os Seres Encantados e os animais selvagens, além de um extraordinário dom de comunicar-se com as Árvores (pela prática do Ogham), o que garantia a continuidade da linhagem mágica - condição 'sine qua non' - conforme os costumes dos povos sedentários seguidores da Antiga Arte na Europa ao fim da Idade Antiga. Viúvo, seu pai era cobiçado por várias aspirantes à ascensão na prática da Antiga Religião, mais pela possibilidade do 'cargo' do que pelos dotes do quarentão... Uma engenhosa feiticeira venceu as concorrentes por sua beleza física adquirida através de artifícios nem tão sutis: sua prática de Magia limitava-se à ilusão da comparação com a concorrência, em todos os níveis e em escala diária, prática esta ainda muito disseminada em nossos dias. Vencido pela carência oriunda da falta da esposa que partiu prematuramente, o rei, se percebeu (muito provavelmente o fez) a precária habilidade da feiticeira consorte, preferiu voltar sua atenção ao término do treinamento de sua filha. A feiticeira madrasta não suportando sua própria incapacidade para ocupar tão alto desígnio e, para disfarçar sua falta de talento, passou a exigir a atenção total do rei com estórias sem nenhum interesse significante, com receio de que este passasse o Conhecimento Secreto para Branca de Neve. Seu espelho - instrumento mágico muito comum entre os praticantes da Velha Religião - era usado somente para avaliar sua aparência física, os sinais do Tempo em seu corpo mantido pelas comparações, incorrendo num erro simultaneamente simples e fatal: ao lidar com os sinais temporais diante da superfície mágica, estes tendem a fixar-se, lei muito conhecida dos verdadeiros magos... No dia em que o espelho revelou a inexorabilidade deste erro, a feiticeira madrasta voltou toda sua frustração e rancor contra a impecabilidade e juventude de Branca de Neve. Ordenou sua morte na Magia Branca e mais: que lhe arrancassem o coração, torna-la adepta da Magia Negra. Porém, sua inabilidade nas Artes Mágicas traçou um destino insólito ao aprendizado de Branca de Neve: justamente pelo seu doce coração, o assassino contratado pela feiticeira madrasta apiedou-se da filha do rei e abandonou Branca de Neve justamente na Floresta, em meio às Árvores tão conhecidas da jovem. Versada no Ogham, o alfabeto sagrado das Árvores, Branca de Neve encontrou o caminho que a levaria de encontro aos 'dwarfs' (chamados pelo povos de língua portuguesa de 'anões', o que confunde um pouco as versões da lenda), uma raça de Seres Encantados que vivem nas minas de ouro e diamantes, protegendo estes tesouros que são muito caros aos terapeutas de todos os Tempos, pelas suas propriedades de cura. Os 'dwarfs' ensinaram suas Artes à Branca de Neve durante todo o tempo em que ela permaneceu com eles, e como os 'dwarfs' são muito sociáveis a outros Seres Encantados, a jovem também adquiriu mais conhecimentos, nas Artes das Plantas Mágicas, na Linguagem dos Pássaros e na Rota dos Ventos. Através do Ogro a feiticeira madrasta soube que Branca de Neve vivia com os 'dwarfs' (a fofoca também sempre foi muito disseminada entre o Povo Mágico, infelizmente) e lá se foi ela, em sua real aparência humana, ou seja, uma velha, devidamente armada com uma cesta de maçãs envenenadas para dar cabo à sua rival. Branca de Neve percebeu, quando viu a velha oferecendo uma linda maçã envenenada, que tratava-se da madrasta. E, num 'golpe de mestre' transformou o veneno numa poção do amor e devorou a maçã. Branca de Neve sabia que a poção a levaria a um sono profundo onde ela pudesse tecer uma nova realidade para seus dias futuros. No Sonho, ela engendrou o caminho para que seu Feiticeiro consorte chegasse até ela e tornar-se o novo rei quando ela tornar-se-ia a rainha. O feiticeiro foi guiado pelos 'dwarfs' até o 'castelo de diamante' (vide o 'castelo de vidro' de Merlin) que haviam construído em torno do Sono de Branca de Neve e lá, com um beijo, despertou a Grande Rainha que nunca mais deixou de sonhar bons desígnios para seu Povo Mágico. Seu pai, o rei, retirou-se para seu merecido descanso na Ilha. E a feiticeira madrasta? Ora, ninguém sabe nada da velha, deveria cair no esquecimento dos incompetentes. Mas nesta época em que vivemos dias sombrios e inexpressivos, há quem ache a inábil o máximo. Pensem sobre isto...
Outono 2009
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