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Era uma vez...
No centro do Nemeton, na Árvore que abriga o "Castelo de Vidro" onde Merlim obtém seus mais caros poderes, o dom da Visão, o dom de agir sobre os elementos, o dom de curar todos os males humanos, o dom de dominar e falar com os animais, o dom da metamorfose, o dom da invisibilidade e o mais invejado de todos os dons, o de eventualmente ressuscitar os mortos, está a chave de compreensão de todo o ciúme de Morgana, cujo rizoma encontramos latente em nossos dias, no mais recôndito da alma feminina. (Como sou mulher, posso contar sem receio de ser tachada de 'machista' pelos afoitos e precipitados críticos de 'superfície'...) É bem verdade que a sociedade celta foi bastante equilibrada em relação aos papéis femininos e masculinos em sua dinâmica, mas também foi excepcionalmente autêntica e transparente em relação aos sentimentos despertos por este equilíbrio em matéria de competitividade nas atuações de cada sexo. Naqueles tempos, muitos de nossos sentimentos "sombra" não eram reprimidos pela cristandade que ainda não rondava o mundo celta. Hoje fica difícil para a grande maioria dos humanos alcançar uma sinceridade estável para vivenciar equilibradamente seus lados "sombra" e "luz", porque o grão do medo está profundamente enraizado em nossas almas. Sem dúvida foi Merlim quem reinou absoluto e solitário no "Castelo de Vidro". De lá, com seu charme enlouquecido, atraía mulheres lhes prometendo ensinar as artimanhas da Magia, após "surrupiar" o poder mágico de sua meia-irmã Viviane através de uma união apaixonadíssima, mas que ele deixa de lado pela sua insaciável sede de Poder que era realmente o grande plano de sua extensa vida, ou melhor, muitas vidas. À Morgana, que mal e mal podia transformar-se em pássaro, restava apenas arder de ciúmes de Viviane, esta sim, a doadora da plenitude de Merlim através da união incestuosa, pois afinal, ambos eram filhos do 'diabo'. Morgana e Viviane foram discípulas constantes de Merlim. Porém, a discípula querida e número um será para sempre Viviane. Morgana conta com a popularidade e simpatia do vulgo e em nosso tempo sua presença está difundida em milhares de páginas da rede eletrônica; enquanto que Viviane, às vezes confundida com a Dama do Lago de Avalon, está envolta num véu de mistério muito bem engendrado por Merlim, que depende destas brumas para manter seu próprio poder através dos Tempos. Morgana nunca foi a rainha das fadas, apenas uma futura pré-candidata a esta honra durante a remota época em que os Tuatha Dé Dannam aprisionaram os espíritos de luz (que estavam em guerra entre si) no Tempo e depois, quando os soltaram, não permitiram que estes voltassem aos seus lugares de origem. Assim, estes pobres espíritos ficaram vagando para sempre nos bosques, florestas, montanhas, cavernas e águas, originando os elementais e fadas tais como os conhecemos até nossos dias. Morgana sempre foi e sempre será a preterida, não importam seus outros nomes, seu tempo ou sua atuação, ela está em segundo plano na paisagem mágica. Por isto, sempre será a ciumenta, como o foi de sua mãe Ygraine, de seu irmão Arthur e de sua esposa Guinevère na lenda celta mais popular, como o foi de Merlim pelo seu "Castelo de Vidro", como sempre será de Viviane pelo amor desperto em Merlim. A magia de Morgana é engendrada pelo ciúme, um dos mais humanos sentimentos, a magia que começa em mel e se desvanece em fel. É a feiticeira mais próxima de nossa humanidade e por isto mesmo a mais procurada pela identificação feminina. Porém, acautelem-se nesta aproximação! Morgana tem ciúmes até de sua própria sombra...
primavera 2008
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