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Em novembro de 1989, em pleno renascer da Era de Ouro das histórias em quadrinhos em território nacional, quando as bancas estavam sempre cheias de novidades, entre revistas de linha, mini-séries de luxo e graphic novels, foi lançada um número desta última, intitulado Shamballa, da Marvel Comics, escrita por Jean-Marc DeMatteis e ilustrada por Dan Green, trazendo como personagem principal, claro, o Doutor Estranho (Doctor Strange, no original), mestre das artes místicas e um dos poucos caracteres devotados ao misticismo em geral, mesmo tendo sendo criado por Stan Lee, o homem forte da Marvel, que atualmente só trata das grandes linhas financeiras da mega-corporação que a referida editora se tornou. Na época, a graphic novel foi execrada pela mídia especializada, que afirmou ser o roteiro uma bobagem 'místico-riponga', dando ênfase a conceitos que ficaram superados depois dos anos 60. Para ler tal bobagem, afirmaram alguns, seria necessário o leitor tomar uma dose de LSD e colocar um velho álbum do Pink Floyd na vitrola (naqueles dias o CD estava engatinhando por aqui), no caso a música Cymbaline, da trilha sonora do filme More, de 1969, canção esta que faz referência direta ao nosso Doctor Strange, e a capa do álbum anterior, A Saucerful of Secrets, de 1968, que traz, entre velhas gravuras alquímicas, a imagem do Mago Supremo estampada. Shamballa, na concepção do pessoal new wave daquela época (tendência que já estava começando a ficar superada, então) era o equivalente em quadrinos adultos aos discos do The Cult, que fazia uma tentativa desesperada de reviver os anos 60. No segundo caso, as críticas até têm a ver, haja visto o recente desastre que foi o retorno dos Doors com Ian Astbury, ex-vocalista do The Cult, fazendo de tudo para se transformar no novo Jim Morrison. Patético, ridículo, digno do lixo e do esquecimento. Mas no caso da nossa graphic novel, as críticas foram prematuras e não tinham, em verdade, nenhuma base que as sustentasse. Pudemos constatar isso relendo Shamballa há pouco tempo (outubro de 2005). Não só a arte de Dan Green, com destaque para as aquarelas, já é um bom motivo para passar os olhos pelo menos pelos desenhos, como o roteiro de J. M. DeMatteis valem uma leitura mais atenta e uma crítica menos ácida, uma vez que, mesmo lançando mão de um personagem que nasceu junto com os hippies, nada tem de datado, ainda mais levando-se em conta que as artes místicas das quais o Doctor Strange é mestre estão mais em moda do que nunca, atualmente. E o misticismo, afinal, não é, nem nunca foi, uma moda passageira. O roteiro de DeMatteis chama a atenção para o fato de que os mestres de Shamballa residem dentro de cada um de nós e todo mundo, não necessariamente apenas o doutor Stephen Strange, pode dar ouvidos àquilo que eles ensinam. Foi, talvez, esta tentativa de mestrado místico-hippie que enervou o pessoal naqueles tempos. Se você lê quadrinhos com a mente aberta e costuma freqüentar lojas especializadas em revistas usadas, é possível encontrar Shamballa por lá, de vez em quando. Vale a pena conferir. E o que vem a ser Shamballa? Originalmente, afirma-se entre as comunidades místicas que trata-se de uma terra esquecida, como a Atlântida ou a Lemúria mas que, diferentemente destas, não foi destruída por catástrofes naturais, encontrando-se hoje em alguma região do Tibete, talvez em outra dimensão que não a nossa. Os mestres de Shamballa, de acordo com estas crenças, são os que dominam nosso mundo, no que diz respeito às grandes decisões tomadas pelos políticos, a nível mundial. É mais ou menos o que as teorias da conspiração afirmam sobre os Iluminatti. Só que o interesse, neste caso, é o campo espiritual, não o material. O doutor Stephen Strange era um cirurgião famoso, frio e calculista, cujos interesses giravam entre as mulheres, o dinheiro e o poder. Um dia, ele sofre um acidente automobilístico e perde a capacidade de fazer cirurgias. Jogado na miséria repentinamente, sem outras perspectivas de vida, Stephen vai para o Tibete e se isola em uma comunidade mística local, onde conhece o mestre que vai lhe ensinar como manusear as artes místicas. Pelo menos, foi esse o roteiro imaginado por Stan Lee quando criou Doctor Strange, em 1964. Shamballa parte deste mesmo princípio, levando o mestre das artes místicas de volta ao templo em questão. Seu mestre já deixou este plano, mas o servo deste ainda lá se encontra, para recepcionar os poucos viajantes que se aventuram tão alto e tão longe. O encontro com este homem simples vai colocar Stephen Strange às voltas com um grande enigma, com seus erros e excessos do passado voltando para assombrá-lo. Colocando assim parece mesmo coisa de hippie sessentão e, afinal, é isso mesmo. Doctor Strange ainda é o personagem de HQs predileto de muita gente que amava as flores e o amor nos anos 60, mas que hoje vive de acordo com as necessidades materiais que as sucessivas épocas demandam de cada um de nós. A ideologia, entretanto, apesar de sacudida para lá e para cá através dos anos, ainda é válida. Tanto quanto são válidas as histórias em quadrinhos, algumas mais que outras, e as filosofias místico-religiosas, que não estão relegadas a determinadas épocas, além do próprio Doctor Strange. Procure ler e perceba que ainda há fogo sob as cinzas dos ideais dos anos 60. De alguns deles, pelo menos.
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