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UMA VIDA PENDURADA

Imagine que você está consultando alguém que interpreta as cartas do Tarot. As imagens, principalmente as dos grandes arcanos, são alienígenas para você, que nunca tinha nem ouvido falar em Tarot antes. Com um certo receio, você embaralha e escolhe as cartas, em número que vai depender do sistema utilizado por quem as está lendo.

Nunca lhe disseram que é importante saber interpretar qual carta vem acompanhada de outra determinada, e o que isso significa para os dias vindouros, uma vez que o Tarot não se presta apenas a predições do futuro, leitura da sorte ou que tais, embora muita gente trabalhe com ele exclusivamente neste sentido, porque os consulentes assim o querem. Para boa parte destes, saber se um antigo amor vai voltar para suas vidas é mais importante que perceber quais as grandes linhas pelas quais suas existências neste plano vêm atravessando. É uma opção.

Bem, digamos que você está fascinado pelas imagens que se desdobram à sua frente, dependendo do baralho utilizado pelo tarotista. Em meio à beleza das mesmas, de repente você sente um frio no estômago. Está ali a carta 13, a Morte! E agora? Não vale nem mais a pena continuar a leitura, pois você vai morrer mesmo, certo?!

Nada disso. A carta número 13 pode até significar o fim da vida, sim, mas raramente quer dizer isso. Ela implica em transformação exterior, na morte, sim, daquilo que não nos serve mais, que precisa ser renovado, mudado, transcendido. A interpretação de cada carta, uma a uma, solitária, só vem ao caso mesmo se o consulente escolher apenas uma para saber como vão as coisas e obter uma resposta mais imediata. Neste particular, há cartas mais sinistras que a Morte. Por exemplo, a que a precede imediatamente, a carta número 12, que se convencionou chamar de O Enforcado mas que, na verdade, responde pelo nome de O Pendurado, Le Pendu, The Hanging (não Hanged) Man, em inglês.

Em alguns baralhos, como no Grande Tarot Espanhol por exemplo, não há nenhuma figura humana pendurada, apenas um poste de flagelação. Mas a maioria dos baralhos de Tarot mais conhecidos mostra mesmo um homem pendurado pela perna (direita, demonstrando que é o consciente que está preso, no Rider-Waite, esquerda, ou seja, a cegueira do inconsciente, no Thot, de Aleister Crowley), de cabeça para baixo, com moedas caindo de seus bolsos, em alguns baralhos, como Cristo crucificado ao contrário, no caso de Crowley.

Esta carta, geralmente, não chega a assustar o consulente, a não ser talvez pelo título Enforcado. Se quem está lendo as cartas a denominar O Pendurado, provavelmente não vai despertar nenhum sentimento de terror, ou de cautela. E deveria. A se levar em conta o simbolismo per se de cada carta dos grandes arcanos, podemos dizer que esta é a mais dark de todas as 22 cartas principais.

Começando pelo Louco, a carta sem número, até o Universo, ou Mundo, a carta 21, os arcanos maiores representam uma jornada interior para o consulente, jornada esta que já foi interpretada por vários estudiosos do Tarot, inclusive Arthur Edward Waite, o mentor, junto com a artista Pamela Colman Smith, do baralho Rider-Waite, e Aleister Crowley, criador, junto a Frieda Harris, do Tarot de Thot. Levando-se em consideração as teorias de Carl Gustav Jung e os arquétipos, como o faz o tarotista alemão Hajo Banzhaf, a leitura individual de cada carta fica ainda mais clara, muito embora boa parte dos leitores das mesmas prefira não levar estes estudos em consideração, nem a maioria dos consulentes se importar com quem foi Jung, o que são os arquétipos e o inconsciente coletivo, coisas assim.

O Pendurado está bem no meio da jornada iniciada pelo Louco em direção ao Mundo e, no baralho Rider-Waite, se colocada logo abaixo desta última, as duas cartas formam uma cruz ansata, o símbolo da eternidade para os antigos egípcios, pois ambos os personagens que surgem nestas cartas estão com uma das pernas dobrada em quatro, um de ponta-cabeça (não, eu não sou paulista, apenas vivi lá muito tempo!), o outro de cabeça para cima.

Levando-se em consideração a jornada em si, a carta 12 representaria justamente aquela fase da vida em que o homem e a mulher estão entrando na meia-idade e, de repente, um abismo se abre à sua frente e tudo que vinha sendo construído até então desliza para dentro dele. O indivíduo se encontra preso, amarrado em meio a uma terra onde todos os símbolos de esperança estão dormindo, onde nada pode florescer (no Tarot de Thot). Daqui, eu vou para onde? Todos os caminhos estão fechados, quer dizer, perdeu-se o ganha-pão, está-se perdendo dinheiro a cada dia que passa, não há fonte próxima de onde tirar mais. Isto levando-se em conta apenas os aspectos materiais.

Os espirituais também estão em uma encruzilhada aparentemente intransponível nesta etapa do caminho. Todas as crenças a que nos apegamos durante tanto tempo se mostraram inúteis, todo o longo percurso que estávamos atravessando há tanto tempo, enfrentando muitas dificuldades, levou à beira do abismo e, agora, nada resta a fazer a não ser retornar ao ponto de partida e começar tudo de novo.

Não se trata de tarefa fácil, seja no plano espiritual ou material, e não são raras as pessoas que ficam penduradas pelo resto de suas vidas, ao enfrentar tal obstáculo. Portanto, pelo menos na opinião deste que vos escreve, nem A Lua, que também coloca muitas armadilhas ao consciente e ao inconsciente, representa uma estagnação tão grande no caminho de alguém como a carta número 12. Nela, pelo menos, como uma droga potente, temos a ilusão de estarmos percorrendo um caminho mágico e fascinante, daí a tendência a não abandoná-lo jamais. O Pendurado traz apenas a aridez de quem chegou a um ponto onde nada mais resta a fazer a não ser se resignar com as peripécias do Destino.

Entretanto, no que diz respeito ao Tarot Rider-Waite, a figura está pendurada em uma sebe onde flores estão brotando aqui e ali. E o prêmio para quem conseguir superar as adversidades e chegar ao Mundo é a Ankh, a cruz ansata. Mesmo em meio à aridez, portanto, há esperança, que também se apresenta nos outros baralhos, inclusive o de Crowley, através de símbolos quase ocultos, mas que estão lá e apontam para uma saída daquela situação de vida em estado de animação suspensa. Navegar pois, caminhar sem descanso, com algumas paradas entre as etapas, para sentir o perfume das rosas, é preciso.

Márcio Salerno, STEPPENWOLF


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