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ESPÍRITO, MATÉRIA E DESRESPEITO EM GERAL

A falta de respeito com o próximo é algo notório, em especial no Brasil. Se nem os governantes respeitam os governados, porque estes deveriam respeitar-se mutuamente, certo? É mais ou menos como aquela história do Gérson afirmando que gosta de levar vantagem em tudo, guardadas as devidas proporções.

Com relação a alguns segmentos de nossa sociedade, esta falta de respeito pode se traduzir em algo trágico, porque se pretende cômico. Se você ainda não se dedica de corpo e alma às ciências arcanas mas, pelo menos, já é interessado nelas e procura ler e se informar a respeito o mais que pode, já deve ter se deparado com a irrespeitabilidade a que aqui me refiro. Se você não está com a maioria, então está fora dela e passa a ser discriminado pelas religiões de massa.

Creio eu que você já deve até ter desistido de conversar com seus conhecidos a respeito de assuntos arcanos, uma vez que eles, provavelmente, sempre o olhavam com um certo ar de superioridade ao ouvir tais elucubrações. Acredito, sim, que você preferiu se afastar o mais possível da maioria destes conhecidos e, com relação àqueles que ficaram, achou mais sensato nunca mais trazer à baila assuntos esotéricos junto a estes. Pois a maioria, mesmo ignara, ainda acha que a verdade está com ela. Se milhões de chineses se alimentam de arroz todos os dias, eles não podem estar errados, certo?

Errado. Arroz demais estufa a barriga e não provê o indivíduo com as vitaminas necessárias à sua alimentação. Brincadeiras à parte, as tribulações dos chineses (ainda!) não nos interessam aqui, apesar de uma reflexão a respeito daquele povo vir a calhar, quando se trata de assuntos do espírito. Desde que o comunismo tomou seu lugar na China, nos finais da década de 1940, o grande legado místico-esotérico daquele país ficou relegado aos baús de quem se recusa a esquecer as velhas tradições. E a China tem uma história pregressa que ultrapassa o comunismo por milhares de anos. Convém pensar muito bem a esse respeito, haja visto os rumos que nosso atual governo vem tomando...

Entretanto, ainda não são os governantes que nos olham de soslaio, balançam a cabeça e afirmam: "Lá vai um sujeito completamente maluco...!". Pois ser um tanto quanto diferente, não se alinhar com a grande maioria, ser arredio, preferir estar na companhia de seus livros, incensários e outros materiais usados para se comunicar com os espíritos e os deuses de outrora, é considerado, pela maioria de nossos vizinhos e conhecidos, como coisas de maluco. E se, por acaso, você estiver incomodando alguém que também se dedica às grandes linhas arcanas, é muito provável que esta (ou esta) também saia por aí afirmando: "Mas esse 'cara' é louco, todo mundo sabe disso...!". Todo mundo, quem?!

Estou afirmando isso por observação, lógico, mas também milito em causa própria, pois é claro que já senti na pele todo tipo de preconceitos. Um dia, você entra na roda e faz algumas brincadeiras que são vistas por terceiros como coisa de doido quando, na verdade, você está apenas liberando um pouco de vapor da caldeira, se é que me entende. Aí, outro belo dia, você percebe que as pessoas realmente acreditam em sua loucura, simplesmente por ter crenças que diferem da maioria. Uma maioria, por sinal, que traz em seu bojo um grande número de pessoas que sequer têm uma crença filosófico-esotérica, e isto para nos atermos apenas ao mundo do espírito.

Há esotéricos por aí que são incensados por outros, que os consultam de vez em quando e rezam loas para eles, acreditando serem mesmo o créme de la créme no que diz respeito ao contato espiritual. Mesmo diferentes da imensa maioria, é provável que ele(a)s também prefiram ver outras pessoas que se dedicam às mesmas coisas como `loucos de carteirinha`.

Talvez você que lê estas linhas tenha sido, em passado remoto ou mais recente, alguém para quem o mundo místico-religioso era sinônimo de uma grande bobagem. É provável que você tenha saído por aí apregoando seu ateísmo aos quatro cantos, sem lhe importar quais suscetibilidades pudesse estar ferindo. Aí, o tempo passou e alguns acontecimentos, dos quais só você pode prestar testemunho, o fizeram mudar de idéia e dar uma olhada do outro lado do espelho, para ver o que se esconde por lá.

Um e outro sonho, aparentemente vindos dos portões de chifres, não de marfim (por onde passam aqueles que ocultam a verdade), pareciam querer lhe dizer alguma coisa, a qual você começou a pesquisar. Digamos, então, que você passou a se interessar, estudar e manipular o I-Ching, e isto é apenas um exemplo. Aí, aquele esotérico que é o 'rei do ban-ban-ban', com quem, por acaso, você já se consultou, provavelmente vai espalhar por aí que não é nada disso, que você sempre foi ateu e que agora está se dedicando a estudar e interpretar o I-Ching porque deve haver algum interesse por trás disso, etc. e tal. Mesmo no mundo místico, a inveja e o preconceito podem se manifestar e isso é algo que não deve ser esquecido.

Isto é um desabafo, claro, mas também um alerta. Mesmo que você seja "completamente louco, e todo mundo sabe disso...!", este conceito de 'todo mundo' é muito relativo, e nem é preciso ser um Einstein para perceber que a relatividade se aplica a qualquer aspecto de nossa existência, em tudo que somos e fazemos, em tudo que sonhamos e nunca chegamos a realizar, enfim, em toda essa coisa ao mesmo tempo maravilhosa e aterradora que se convencionou chamar Vida. Portanto, desde que você saiba, dentro de si mesmo, que leva a sério o I-Ching ou qualquer outra coisa a que decidiu dedicar seu tempo e estudos, viva a sua de acordo com suas próprias idéias e interesses, a despeito dos que o taxam como louco. Mais dia, menos dia, ele(a)s também terão suas próprias crenças e afirmações sacudidas nas bases.

Márcio Salerno, STEPPENWOLF


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