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WALKING ON THE MOON

O Police, um grupo de rock dos anos 70/80, de onde saiu o superestimado Sting, mas que também tinha o bom guitarrista Andy Summers e o baterista Stewart Copeland, gravou uma música com este título, mas duvido muito que os três estivessem pensando no Arcano XVIII do Tarot quando a executaram.

Peguei uma carta do Tarot de Thoth esta manhã, ao acaso, como faço muitas vezes, e não deu outra: saiu a Lua. Aleister Crowley, o homem que se esconde por trás deste Tarot particular, junto com a pintora Frieda Harris, é taxativo em seu livro The Book of ThothEgyptian Tarot: a Lua é uma carta extremamente negativa e deve-se ter muito cuidado quando ela aparece em uma leitura. De todos os Arcanos Maiores, a Lua, segundo Crowley, é o mais terrível.

Talvez o mago, considerado por muitos como “o pior homem que já pisou na face do planeta”, tenha tido seus motivos para não gostar do satélite da Terra. Na opinião deste que vos escreve, o Arcano XVIII pode até ser um mal, mas para lá de necessário. Depois de ter sido atirado de cima de sua Torre, obrigado a fazer uma dolorosa mudança interna e passar a ver a vida com outros olhos, o Louco, que teve um ‘refresco’ junto à Estrela e cuja jornada está chegando à sua conclusão, necessariamente tem de cruzar a ‘noite negra da alma’ para alcançar a luz do Sol, que brilha logo adiante dos portões sinistros guardados por duas estátuas de Anúbis, o deus que conduzia a alma dos mortos no antigo Egito, mais dois chacais ferozes, mais os perigos de se cruzar o terreno pantanoso, que passa por um caminho que lembra a vagina feminina (o Arcano XVIII é essencialmente feminino, daí seu aspecto de caverna, de umidade, de um mistério que aparenta não ter fim).

Mesmo em outros Tarots, a Lua não é muito diferente da representação feita por Crowley/Harris, e seu significado é sempre sinistro, mas não necessariamente nefasto. Mais ou menos como reza um poema do brasileiro Francisco Otaviano, ‘quem passou pela vida em brancas nuvens e em plácido repouso adormeceu, foi espectro de homem (ou mulher), não viveu’. Quer dizer, cruzar a noite escura da alma é um mal necessário em nossa passagem por esta vida terrena, e esperemos não ter de passar por ela de novo quando nossas almas alcançarem outros níveis. Trocando em miúdos, não dá para fazer um omelete sem quebrar uns ovos.

O mundo do entretenimento, às vezes, empresta alguns conceitos do Tarot, entre outros, e os utiliza para criar suas obras. Não faz muito tempo reli uma obra em quadrinhos fundamental para definir a confusa virada dos anos 80 para os 90, apesar de ter sido encomendada pela DC Comics americana para chegar às bancas em 1989, ano em que Batman completava 50 anos de criação e quando estreou um longa-metragem dedicado ao Homem-Morcego (apesar de o Coringa ter roubado a cena). Mas Arkham Asylum, escrita pelo escocês Grant Morrison, que fez diabruras impensáveis com personagens como o Homem-Animal e a Patrulha do Destino, e pintada pelo inglês Dave McKean, só saiu mesmo no segundo semestre de 1990, depois dos responsáveis terem enfrentado problemas com a trama, incluindo aí até o tamanho das orelhas de Batman. Experimentalismo e indústria cultural, afinal, nunca andaram mesmo de mãos dadas.

A graphic novel foi relançada nas bancas brasileiras em 2004 e ainda é possível encontrá-la em lojas especializadas. Na trama, os internos do Asilo Arkham para Criminosos Insanos, liderados pelo Coringa, tomam conta do lugar e obrigam Batman a se juntar a eles, em pleno dia 1º de abril, o Dia da Mentira, mas também o Dia do Louco, quer dizer, uma data dedicada a velhos deuses que estão representados pelo Arcano 0 (ou 22) do Tarot, o Louco. Qualquer semelhança não é mera coincidência, pois as referências ao baralho de Crowley/ Harris continuam logo na página de abertura da HQ, com uma representação estilizada do Arcano XVIII, a carta da Lua. O significado explícito disso é que Batman terá de enfrentar sua noite escura da alma, percorrendo os sinistros corredores da mansão, enfrentando seus piores inimigos em cada esquina, até ser liberado pelos internos.

A trama inclui bem mais que isso, claro, e Arkham Asylum merece ser lida não só por quem se interessa por quadrinhos experimentais, mas também quer saber mais a respeito das cartas do Tarot de Thoth, pois vários dos Arcanos Maiores, e alguns dos Menores, estão representados na obra.

Bringing it all back together, ou melhor, somando dois mais dois e tirando a prova dos nove, Batman não seria quem é caso não tivesse de confrontar o Arcano XVIII praticamente todas as noites de sua vida. Não sou o Homem-Morcego, nem vou sair por aí enfrentando o Duas Caras, o Crocodilo, o Chapeleiro Louco, o Coringa, etc. e tal. Mas o que interessa aqui é a metáfora escondida por trás das idéias de Morrison, e por trás da imagem sinistra da Lua de Crowley/Harris: não dá para fazer omeletes sem quebrar ovos, quer dizer, não dá para estar vivo e respirando e evitar percorrer a noite escura da alma. Mesmo quem decide se isolar dentro de uma fortaleza que não admite outra presença que não a sua, não vai estar livre da Lua. Não há nada pior que estar completamente só, à noite, quando o travesseiro não é nosso amigo e o sono foge de nossas mãos, enfrentando Anúbis e os chacais a cada minuto.

Por outro lado, há quem se sinta em casa em meio às trevas, como é o caso do nosso famoso personagem fictício de orelhas pontudas descrito acima. A vida apresenta meandros tão complexos a quem se atreve a vivê-la (porque nenhum ser humano escolheu vir para cá, a escolha recaiu sobre outras pessoas) que muitas vezes passamos um bom par de anos, quiçá a vida toda, perdidos nos meandros escuros deste Arcano. Não fosse assim, o movimento Dark não teria existido. É algo para se pensar a respeito, mais uma verdade oculta nos Arcanos do Tarot.

Márcio Salerno, STEPPENWOLF


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