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Este é apenas o título de um dos capítulos do livro The Soft Machine, de autoria do escritor William S. Burroughs. Por sinal, o único capítulo compreensível do livro. Explique-se. Depois de escrever um romance autobiográfico chamado Junky, sob o pseudônimo William Lee, em 1953, Burroughs levou mais cinco anos para publicar The Naked Lunch, o livro que o tornou famoso, em especial entre os setores menos conservadores da sociedade, ou seja, quem quer que se mantivesse na vanguarda de algo, mas também drogados, marginais, etc. Entenda-se que Burroughs, o homem, descendente direto do criador da máquina de calcular Burroughs, era um pária que gastava o dinheiro dos pais circulando pelo campus da Columbia University, em 1944, onde se tornou mentor de outros dois nomes que, com ele, formariam a ‘Santíssima Trindade’ de um movimento literário que ficaria conhecido como a ‘Geração Beat’, na década seguinte, Jack Kerouac e Allen Ginsberg. Entenda-se também que, apesar de ser um indivíduo ‘podre’, Burroughs também foi (ele morreu em 1997, aos 83 anos) um escritor que não encontra paralelo até hoje, apesar das muitas tentativas de homens e mulheres de letras, por ele influenciado(a)s. Segundo Barry Miles, autor da biografia William Burroughs – El Hombre Invisible – A Portrait, Burroughs, assim como os Beatles na música, é “uma presença inevitável no mundo das letras, como uma estátua gigante que não pode ser ignorada, por mais que se queira fazer isso”. Ainda segundo Miles (apesar de claríssimo para qualquer pessoa que conheça seu trabalho) a influência ‘burroughsiana’ se dá muito mais no mundo das artes em geral, e da cultura pop em particular, do que no da literatura propriamente dito. Apesar de ter influenciado um sem-número de grupos de rock (e punk rock), Burroughs sempre afirmou não conhecer muito a respeito deste mundo, assim como negava ser um Beatnik (e não era mesmo, outro fato que fica claríssimo para quem leu seus livros e os trabalhos de Kerouac, Ginsberg, Gregory Corso, Lawrence Ferlinghetti, Gary Snider e outros ‘beats’ famosos). Tendo a vida cercada pela tragédia, o assassinato de sua mulher Joan Vollmer a pior delas, Burroughs se dizia perseguido pelo ‘Ugly Spirit’, ou seja, uma entidade maléfica que o obrigava a escrever compulsivamente, para escapar de sua influência. Seja como for, este ‘Ugly Spirit’ o perseguiu até seus últimos dias, uma vez que o remorso por ter matado Joan foi um fato que sempre o perseguiu. Burroughs tinha algumas idéias muito particulares a respeito de estar vivo no planeta Terra e conhecer seu trabalho hoje é tão válido quanto o seria estudá-lo há quarenta anos, uma vez que seus escritos não podem ser classificados como pertencentes a um determinado período, sem ter relevância atual. Novamente, assim como a presença dos Beatles, o trabalho de Burroughs tem um quê de profético. Ainda na década de 50, seus escritos faziam menção a um vírus mortal que veio a se tornar o grande mal dos finais do século XX, a Aids. Às vezes com a ajuda de parceiros como Bryon Gysin (o pintor e escritor que criou os cut-ups, um método de escrita que se tornou o pesadelo de quem tentou ler livros de Burroughs, imagine para seus tradutores!), Burroughs se interessava pelo mundo oculto e sobrenatural, era um expert nas tradições religiosas dos antigos egípcios, maias e astecas, mas não se interessava pelos aspectos religiosos propriamente ditos, mas pela mística que tais culturas trazem imbuídas em sua existência. Depois de Naked Lunch e depois dos 40 anos, a obra de Burroughs, como já afirmamos, passou a interessar quem queria fugir do ‘reme-reme’ da literatura tradicional e também a quem se interessava por aspectos menos ortodoxos das muitas religiões e seitas espalhadas pelo mundo. Na primeira metade dos anos 60, maravilhado pelos cut-ups, método que consistia em cortar trechos de jornais ou de livros, rearranjá-los e, com isso, criar uma nova linguagem (o fato de estar ser praticamente incompreensível não importava), Burroughs escreveu uma trilogia de novelas que praticamente se completavam, começando por The Soft Machine, livro que circulou em três versões distintas (Burroughs reescreveu alguns capítulos para lançamentos na França, Inglaterra e Estados Unidos), The Ticket That Exploded (que existe em duas versões, uma delas com alguns apêndices interessantes) e Nova Express, este em apenas uma versão. Nenhum deles foi traduzido no Brasil até hoje, o que mostra que ou as editoras perceberam que a tradução nacional de Naked Lunch ficou tão confusa, apesar de o autor não ter desenvolvido os cut-ups na época (mas o livro não tem uma seqüência lógica), ou o público brasileiro não se interessou pelos escritos do homem. Os únicos três outros livros lançados por aqui (todos há muito fora de catálogo) foram Junky (Editora Brasiliense), Cities of the Red Night (José Olympio) e The Yage Letters (L&PM Editores), uma troca de correspondência entre Burroughs e Allen Ginsberg, a respeito a viagem que os dois fizeram à América do Sul, em épocas diferentes, à procura da Banisteriopsis Caapi, ou Yage, uma planta alucinógena, cujas ‘viagens’ fizeram parte dos escritos de Burroughs durante um bom tempo, em particular na criação da Interzona, um lugar fictício que lembra Tanger, no Marrocos, cidade onde Naked Lunch foi escrito, mas também as narrativas de quem já tomou o alucinógeno. Isso quer dizer que você só vai encontrar a trilogia acima citada em inglês, o que é ideal para quem lê esta língua, uma vez que a tradução de William Burroughs, em qualquer língua, trai muito o escrito original. Apesar das dificuldades, seria de interesse, caso você seja interessado no Oculto, conhecer. The Ticket That Exploded e Nova Express centram-se nas tentativas de Burroughs em fazer o mundo perceber que estamos todos sendo controlados, em qualquer instância de nossas existência, por partidos políticos, e leis a nós impostas, e conflitos que acontecem todo o tempo, e a mídia em geral, que cerca a existência de todos, levando-os a crer que aquilo que noticiam é real. A palavra, segundo ele, escrita ou falada, “é um vírus que veio do espaço e que deveria ser erradicado”. De acordo com Burroughs, é possível substituir a palavra através de outros meios de comunicação, como as cores. The Soft Machine, o primeiro trabalho a destacar os cut-ups, lida com basicamente os mesmos temas, mas diferencia-se dos outros justamente por conter (nas três versões) o capítulo The Mayan Caper, ou seja, a Plataforma Maia, o único escrito de forma compreensível para quem não está acostumado, nem disposto a dar ‘tratos à bola’, com os cut-ups. The Mayan Caper faz menção ao Tzolkin, o calendário maia, aquele mesmo que tornou o artista plástico José Argüelles conhecido do público ligado em temas New Age, expressão que este teria criado. O Tzolkin e seus kins fazem parte dos estudos de grupos que acreditam que o mundo como o conhecemos tem data marcada para terminar, ou seja, 2012, de acordo com o calendário. O fato dos maias (e incas e astecas) terem ‘desaparecido do mapa’ deve ter alguma coisa a ver com isso, se bem que, no caso dos últimos, a culpa foi mesmo dos conquistadores espanhóis! Apesar do approach de Burroughs ter mais a ver com a paranóia do controle, é de interesse para quem ‘se liga’ no mundo paranormal, incluindo aí aqueles que acreditam na existência de OVNIs (Burroughs acreditava) conhecer melhor suas idéias. Dentro do universo New Age e afins também há muitos autores e estudiosos que conhecem (e são influenciados pela) obra de William Burroughs, assim como vários artistas ligados ao mundo da música, do cinema, do teatro, da literatura, das artes plásticas e afins. Quer dizer, o escritor não tem mesmo muito a ver com a ‘Beat Generation’ e sua obra está além das poesias de Ginsberg e Corso, bem como das ‘estradices’ de Kerouac, isto apesar de todos terem sido muito amigos, em determinada fase de suas vidas. “Não sou um ‘beatnik’, nunca fui, mesmo que o movimento tenha sido criado por meus melhores amigos”, confessou Burroughs uma vez, sendo entrevistado. Ou seja, sua obra tem muito a ver com o mundo oculto e os estudos de mitos e religiões do que a crítica especializada em literatura soube perceber na época em que seus livros enlouqueciam os ‘certinhos’. Só recentemente alguns estudiosos e biógrafos estão trazendo à luz este aspecto da obra de William Burroughs. Daí mencionarmos o autor e sua obra hoje, uma vez que seu trabalho é mais atual que nunca. E, do jeito que o planeta progride, ainda há muita coisa em seus livros que deveria ser estudada (e compreendida) mais a fundo por quem teme ‘the shape of things to come’, parodiando H. G. Wells.
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