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TRADIÇÕES ESOTÉRICAS OCIDENTAIS

Quando se fala em perseguir o esoterismo e mergulhar de cabeça em seu interior, geralmente vêm à mente as tradições orientais como o Hinduísmo e o Budismo, mais antigas, portanto, mais arraigadas na mente do homem moderno, até porque os livros de História falam delas e de outras com muita freqüência.

Mas há tradições esotéricas ocidentais, também. E livros e mais livros por aí alegando conter a chave para decifrá-las. A maioria destes livros pode ser esquecida, mas alguns deles de fato têm o que dizer. Dois exemplos disso estão chegando agora ao Brasil. Um deles vem em formato de história em quadrinhos. Trata-se de PROMETHEA, título escrito pelo roteirista britânico Alan Moore e desenhado pelos americanos J. H. Williams III e Mick Gray, cujos 35 números já foram completados lá fora, pela editora America´s Best Comics e que a distribuidora Devir promete lançar em breve nas lojas especializadas em comics.

Quem já conhece Moore através de obras como Swamp Thing, Watchmen, Miracleman, V for Vendetta, From Hell, sabe que ele costuma mergulhar fundo em tradições ocultas, em especial as que têm a ver com o mundo celta, raiz da qual brotou, como bom britânico. Mas Promethea vai mais fundo e leva o leitor casual a dar um mergulho no universo da Cabala hebraica. O título se refere a uma entidade antiga que encarna no corpo de uma estudante de arqueologia, levando-a a aventuras estranhas.

Um arco de histórias, a partir do número seis, faz com que a heroína/deusa faça uma viagem pelas dez sephirot da Árvore da Vida conforme explicitada nas tradições cabalistas, e esta viagem serve como um guia para quem está interessado em saber mais a respeito do assunto, melhor do que qualquer livro poderia explicar, uma vez que se trata de uma viagem que é graficamente ilustrada. Aleister Crowley e seu Tarô de Thoth, claro, fazem parte da jornada. Portanto, fique de olho nas lojas especializadas em quadrinhos para ver se já chegou.

O outro título que chegou há pouco nas livrarias brasileiras nada tem a ver com quadrinhos, mas é um monólito do qual não se pode desviar em termos de tradições esotéricas ocidentais. Trata-se de A DEUSA BRANCA (The White Goddess), do escritor e pesquisador irlandês Robert Graves. O livro chega com o selo da Editora Bertrand Brasil.

Embora seja um estudo profundo a respeito da poesia celta, A DEUSA BRANCA busca as tradições destes povos, inclusive suas origens, traçadas na Grécia antiga e alguns povos da Ásia, que teriam colonizado a região que hoje compreende a Grã-Bretanha, a Irlanda, a Escócia, o País de Gales, etc. A obra de Graves se tornou referência para o estudo do mito poético, mas é importantíssima para quem se interessa pelos cultos Wicca e pela tradição celta em geral. Quer dizer, tornou-se obra de referência básica para qualquer estudioso e dificilmente você vai encontrar um livro qualquer sobre o assunto que não o cite como fonte de consulta na bibliografia.

Graves ataca os poetas românticos e parnasianos, demonstra seu desprezo pelas tradições, não só místicas como políticas, advindas do mundo grego e coloca ícones como Sócrates e Platão em seu devido lugar, o que causou toda a polêmica do título.

Para o autor, os filósofos gregos nada mais fizeram que mergulhar o mundo ocidental em um ‘homossexualismo intelectual’, com as mulheres no papel de musas inalcançáveis da poesia, a serem decantadas, mas jamais tocadas. Com isso, contribuíram bastante para que o sexo feminino ocupasse um papel quase marginalizado dentro das sociedades atuais, podendo atuar como parideiras e donas de casa, não muito mais que isso.

Graves afirma que toda a poesia tem uma única Musa, ou seja, a Deusa Branca à qual dá vários nomes, de Ísis, conforme aparecia no Egito antigo, a Cerridwen, sua encarnação entre as nações celtas. Os cultos pagãos a Dioniso e Pã, além de outras ‘barbaridades’, conforme a sociedade cristã os vê, fazem parte intrínseca de seu estudo, bem como alfabetos que surgiram entre os celtas. Através de dois poemas épicos, o Cad Gôddeau (Batalha das Árvores) e o Hanes Taliesin (O Conto de Taliesin) Graves traça a relação que árvores e plantas como o visco tinham, conforme emigraram da Ásia para a Europa, com os cultos pagãos em geral e com a Musa em particular.

Tudo isso faz de A DEUSA BRANCA leitura indispensável para quem quer saber mais sobre o papel do homem e da mulher ocidentais em meio a um universo particular. Fica faltando, agora, alguma editora ter coragem de traduzir todos os volumes de THE GOLDEN BOUGH, de sir James Frazer, para que os brasileiros tenham acesso a duas obras que praticamente esgotam o assunto.

Márcio Salerno, STEPPENWOLF


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