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Tudo bem, sabemos que este é o título de um livro bastante querido pelos ecologistas em geral. Mas não é bem ecologia, nem assuntos new age que queremos enfatizar aqui. O fato é que as plantas, essas coisinhas que vemos todos os dias nas beiradas dos caminhos que percorremos, ou nos jardins de nossas casas, caso os tenhamos, escondem muito mais coisas relativas ao Universo e à compreensão da presença da vida na Terra do que possamos imaginar. Ou, pelo menos, quero acreditar que assim seja. Os xamãs, em geral, sabem disso muito bem. Eles são os escolhidos por suas tribos para garantir o bem físico da aldeia mas, principalmente, para ‘segurar a peteca’ dos planos espirituais, aqueles mundos ocultos no interior de nossas mentes, que nos assustam à noite e nos quais temos receio de caminhar sozinhos. A tarefa do xamã é justamente percorrer essas trilhas esquecidas por nós, voltar e nos explicar o que se encontra do outro lado. Para fazer isso, os xamãs contam com uma ajuda especial, ou seja, o poder de umas e outras plantas, que o colocam em contato com os espíritos vegetais, sobre os quais a maioria dos homens e mulheres modernos nada mais sabem, nem querem saber. É o que se encontra por trás da filosofia de Carlos Castañeda, que para alguns não passava de um ‘171’ da vida mas, para outros, representou o mais próximo da figura de um xamã que a maioria dos ocidentais venha a conhecer algum dia, mesmo que apenas por meio de sua literatura. Um dos pontos mais negativos do trabalho de Castañeda foi popularizar o uso de drogas alucinógenas, elas próprias derivadas de plantas, como se fosse sinônimo do ‘barato’ definitivo, ou seja, um bando de imbecis se drogando pelas esquinas da vida, afirmando ter encontrado seu Nirvana particular, só para, anos mais tarde, caírem vítimas de doenças provenientes de excessos, até a morte prematura. Mesmo pessoas iluminadas de grande peso intelectual, como o escritor Philip K. Dick, foram vítimas do abuso de drogas. Um abuso que, com certeza, os espíritos do mundo vegetal devem observar com um misto de horror e descaso. Afinal, não é bem para isso que as plantas estão por aí, assim como não acreditamos que o papel delas seja puramente decorativo. Tem que haver alguma coisa, algum caminho mágico, oculto de nossos olhos acostumados às máquinas, à tecnologia de ponta e ao ciberespaço, que faz parte do mundo vegetal, tão diferente do nosso que chega a ser assustador quando perdemos um tempo de nossas vidas corridas para dedicar a pensar e refletir sobre isso. Castañeda não foi o único intelectual a mergulhar fundo no mundo de Mescalito, Aldous Huxley já tinha feito isso antes, os resultados de suas viagens, à procura de uma mágica especial, não do ‘barato definitivo’, estando à disposição de quem se interessa pelo assunto nos livros As Portas da Percepção e Céu e Inferno que, recentemente, foram acoplados a um só volume. Inimigo ferrenho das drogas quimicamente fabricadas, que induzem à dependência e levam à morte prematura, Huxley nunca se conformou de as plantas alucinógenas não terem sido melhor estudadas e utilizadas para fazer do mundo, e das pessoas que o habitam, algo bem melhor do que está por aí, hoje. Porque, temos certeza, à despeito do ódio que os ecologistas mais ferrenhos sintam por aqueles que abraçaram apenas a frieza da tecnologia, acabando por se tornar tão frios quanto estes últimos por dentro, o mundo das plantas, alucinógenas ou não, oculta muitos segredos que só foram conhecidos em um passado muito distante, quando ainda habitávamos em cavernas ou ocas primitivas. Provavelmente, nem naqueles dias os humanos sabiam tudo a respeito de todas as espécies, mas com certeza sabiam mais do que hoje. Porque, até mesmo quando certos intelectuais estão à procura, unicamente, do ‘barato definitivo’, como foi o caso de William Burroughs, que confessou isso nas páginas finais de Junky e foi para a América do Sul, em busca do Yagé, a planta usada pelo Santo Daime (e a correspondência trocada entre ele e o poeta Allen Ginsberg a respeito do assunto pode ser conferida no livro Cartas do Yagé), alguma coisa aconteceu em seu interior. Comparar a prosa de Burroughs em contraste com a de Ginsberg no pequeno livro é um exercício interessante. Viciado em heroína e outras drogas químicas igualmente pesadas, ao experimentar o Yage, uma planta mágica por excelência, Burroughs teve visões apocalípticas de lugares impossíveis, de etnias que não vingaram, ou que poderiam surgir no futuro, “entidades larvais procurando algo em que se encarnar”, repetindo suas próprias palavras. A experiência, para ele, foi tão forte que toda a sua literatura, no futuro, estaria impregnada destas mesmas entidades. No que diz respeito a Ginsberg, aparentemente foi apenas um ‘barato’ mesmo, não tão definitivo assim. Há que se deixar bem claro que não estamos fazendo apologia de drogas, aqui. Esta alucinação coletiva que deu vazão a toneladas de dinheiro e poderosos milionários envolvidos no tráfico de drogas, que transformou a Colômbia e o Rio de Janeiro, para nos atermos apenas a duas localidades onde o problema é crônico, naquilo que são hoje, com certeza não estava nos planos do mundo vegetal e sua relação com a humanidade como um todo. Se tudo em que esse pessoal pode pensar é em como enriquecer mais e mais através de substâncias quimicamente alteradas, cada vez com menos precisão e, portanto, mais venenosas, isto nos mostra apenas que há algo de muito errado com os seres humanos, não com o mundo natural que os cerca. Esta loucura coletiva era vista por Arthur Koestler como o ‘Fantasma da Máquina’, a certeza de que, em algum ponto de sua evolução, o homo sapiens sofreu alguma ruptura interna, que o está levando para um beco sem saída e o inevitável abismo. Isto já pode ter acontecido antes, caso a teoria de que a vida no planeta se repete, evoluindo até um determinado ponto onde os homens se destroem, só para que o ciclo vicioso se inicie novamente, oculte algo de verdadeiro. Enquanto toda essa demência se processa, séculos e séculos sem parar, o mundo vegetal está aí mesmo, aguardando que nos acerquemos mais e aprendamos como utilizá-lo de forma correta, ou seja, em que nem ele nem nós sejamos prejudicados. Boa parte da mágica sobre a qual nos esquecemos está oculta nas plantas. É como se tivéssemos a Iluminação na palma de nossas mãos, sem sabermos exatamente o que fazer com ela. É trágico, claro, mas grandes iluminados do mundo antigo fizeram seus nomes através de tragédias. Que outros iluminados façam os seus através de algo que resulte na busca da felicidade do ser humano, portanto.
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