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Um texto pouco conhecido na literatura ocidental é Vita Merlini, escrito em latim, no século XII por Geoffrey of Monmouth, conhecido sobre a sua cronologia sobre os reis da Bretanha. Contudo, trata-se de um autor controvertido, uma vez que recolheu suas referências de várias fontes, notadamente orais. Historiadores modernos apontam erros em seus registros, que decorrem principalmente de lembranças.
Mas o mesmo não pode ser dito de Vita Merlini, uma coletânea de contos sobre a vida e profecias do célebre druida, também recolhido de fontes orais, de estórias de ouvir falar. Atualmente, é considerado apenas uma curiosidade literária, entretanto, uma visão mais atenta mostra que se trata de um trabalho elaborado e costurado de tal maneira a conter ensinamentos em meio a estórias aparentemente fantásticas. Os conhecimentos nele descritos de maneira simbólica e velada demonstra que o autor sabia perfeitamente sobre o que escrevia, tratando-se possivelmente de um iniciado nas tradições ocidentais. Vita Merlini é, acima de tudo, um livro com propósitos claros de ensinar os processos de crescimento e transformação interior, fazendo-o especialmente através das imagens que evoca. É pouco provável que Geoffrey of Monmouth tenha tido a intenção de elaborar uma biografia da vida de Merlin, uma vez que os contos estão ordenados não necessariamente numa ordem cronológica dos acontecimentos, mas sim, como um conjunto de estórias (muitas delas fortemente arraigadas no folclore popular da Bretanha, nos séculos X, XI e XII) e poemas, cujos símbolos se movem diretamente no interior de nossa própria consciência. Muitas das estórias encontradas neste pequeno manuscrito provém de fontes diferentes, seja no tempo como no espaço, propositalmente tecidas na figura de Merlin, sábio, mago e, incrivelmente humano. E, por isso mesmo, tão próximo a cada um de nós. Quando tratamos de material obtido por meio da tradição oral, devemos considerar que, em razão de sua natureza, contém ensinamentos práticos, de forte componente interior e, muitas vezes, intimista, o que permite a sua retenção pela memória. Essas características praticamente asseguram a sua preservação. Passado de mestre a discípulo, uma tradição oral pressupõe experiências iniciáticas semelhantes, se não iguais. Ou seja, por meio de uma iniciação, o discípulo terá uma experiência igual ou semelhante àquela do mestre, quando passou por ela pela primeira vez. Esta transmissão de poder é garantia da preservação inalterada do conhecimento nele implícito. Nos tempos atuais, onde tudo se encontra registrado e a memória não é mais tão necessária, não ocorre mais este tipo de transmissão de poder e, numa iniciação, diz-se que o poder é outorgado. Outorgar um poder não assegura que este ou o seu correspondente conhecimento tenha sido corretamente assimilado. E portanto, o conhecimento original tende a ficar definitivamente perdido para as gerações futuras. É o mesmo processo que observamos nas culturas e tradições populares, sufocadas pela mídia globalizada. A principal característica do mito, segundo Joseph Campbell, é inspirar a alma, uma vez que estabelece ressonância com o subconsciente. Uma alma inspirada implica num indivíduo criativo e realmente universalista, uma vez que percebe conexões e referências não facilmente perceptíveis ao olhar destreinado. Em seu texto, reuniu as estórias das vidas de Merlin Ambrosius e Merlin Celidonius. O primeiro é anterior ao Rei Vortigern e tinha como característica o dom da profecia. O segundo tinha grande ligação com os bosques e os animais, não se adaptava à civilização e tinha um perfil que poderíamos chamar de xamã. Ao fundir as vidas de dois personagens num único manuscrito, teve o propósito de apresentar os dois aspectos possíveis de uma existência como druida. Em seu desenvolvimento, apresenta ainda o fato que Merlin tinha irmã e esposa, sendo capaz de emoções absolutamente humanas. No desenrolar dos ensinamentos, é o bardo Taliesin que aparece para entoar, sob forma de poemas, as respostas aos questionamentos de Merlin. O fato de se utilizar alternadamente de dois "merlins" diferentes, faz com que o personagem Merlin do manuscrito alterne estágios de lucidez, sensibilidade e loucura, quando se recolhe novamente para a floresta. Monmouth sabia que o material reunido sob o título de Vita Merlini era o correspondente celta (ou druida) do Novo Testamento cristão, uma espécie de guia de referência para o reencontro com a espiritualidade e o divino. As transformações (e mesmo a loucura) vividas por Merlin correspondem ao processo iniciático que viveu para atingir o seu fim, a sua união eterna com o reino de Annwn.
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