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de Almeida




UMA ESTÓRIA ANTIGA

Trata-se de uma estória de ouvir falar, que me contaram ainda quando pequeno. Porém, à medida que seu conteúdo foi crescendo e tomando força dentro de mim é que pude perceber a sua grandiosidade. Quem me contou, o fez com um olhar distante, perdido nas lonjuras do tempo. Talvez essa estória se pareça com algo que você já ouviu falar ou leu em algum livro. Eu a conto de ouvido, como eu me recordo e possui ainda a combinação de meus próprios sentimentos. Assim, não posso considerá-la original, mas sim, uma adaptação pessoal.

Ela se passa há muito, muito tempo. Onde? Não faz muita diferença.

A estória começa com uma mãe, uma mãe muito antiga, que talvez tenha nascido junto com o próprio planeta. Quem sabe não tenha feito parte da própria criação como uma de suas forças primordiais? Mas se você está imaginando uma velha encarquilhada, cheia de rugas, está muito enganado, pois ela pode ser muito bonita, se assim quiser se apresentar. Ela não vive entre os demais, ao contrário, prefere se manter isolada e distante no interior de algum bosque intocado. Assim, é vista poucas vezes.

Em algumas ocasiões, surge como uma linda donzela, resplandecente em sua vivacidade e quase inocência... Noutras, quando em fúria, aparece com um semblante realmente marcado pelo tempo, aterrorizando aqueles que ousem se interpor em seu caminho. Por isso, muitos a consideram uma bruxa e a deixam em paz, pois ela não se intromete ou interfere na vida dos demais.

Inspiração

Essa mãe tinha dois filhos. O primeiro deles, uma menina lindíssima, graciosa, de olhar vivo e intenso. O segundo, nascido pouco depois, não havia sido afortunado pela beleza. Era disforme, fraco, feio e, muitas vezes, encontrava-se adoentado. No entanto, eram os seus filhos e a ambos ela dispensava todo seu desvelo e amor. Não havia diferença em seu cuidado e carinho. Entretanto, em seu íntimo, nutria o desejo de proporcionar ao seu filho uma qualidade única, através da qual ele pudesse se distinguir, a despeito de sua deformidade.

Após muito pensar e refletir, resolveu entrar em contato com uns sábios que viviam numa torre de um castelo nos picos de uma cadeia de montanhas pouco conhecida. Ela havia ouvido falar que esses sábios destilavam um elixir muito especial do qual bastavam poucas gotas para igualmente se tornar sábio.

Ela sabia que não poderia contar com a ajuda de ninguém para encontrá-los e assim, entrou em profunda meditação para, em sonhos, encontrar o caminho que a levasse para a torre dos sábios. Depois de alguns dias, ela obteve sucesso e os seus sonhos haviam lhe mostrado o caminho.

Tratava-se de uma longa jornada, para a qual se preparou cuidando de cada detalhe. Por fim, encontrou uma senhora que pudesse velar por suas crianças em sua ausência. Numa certa manhã, montou em seu cavalo com apenas a bagagem necessária e seguiu rumo à torre dos sábios.

Após sete dias e sete noites, ela avistou as montanhas onde deveria encontrar a tal torre. Com os olhos da mente, perscrutou o horizonte, buscando se lembrar das imagens das montanhas e dos picos, tentando se localizar na imensidão da planície fria, recordando as suas próprias visões em sonhos. Gradualmente, foi encontrando suas referências e pôs o cavalo a galope numa dada direção. À medida que subia as encostas, o ar se tornava mais rarefeito e mais frio; o caminho se tornava mais estreito e o cavalo encontrava dificuldade em seguir.

No entanto, a uma certa altura, ao contornar uma elevação, deparou-se com uma torre larga e não muito alta, murada por grossas paredes de pedra, formando um círculo. À distância, divisou sua entrada e para lá se encaminhou.

Ao chegar, havia um jovem desarmado que a recebeu e perguntou quem era e o que queria. Ela respondeu seu nome e disse exatamente o que vinha buscar. O jovem então abriu o portal, entrando ambos num imenso gramado, com a torre em seu centro. Havia um caminho a seguir, margeado por algumas flores coloridas. O jovem a deixou na entrada da torre, recomendando que deixasse o seu cavalo com ele, que seria bem cuidado.

Após fazê-lo, tomou uma inspiração profunda e entrou na torre. Havia um salão, não muito grande, onde pareciam haver conferências de vez em quando, pela disposição da mobília. E num canto, havia também uma escada em espiral. Toda a iluminação era natural e o ambiente era extremamente claro.

A escada era antiga, de pedra, gasta pelas várias vezes que fora utilizada. Dizia-se que esses sábios eram anteriores à criação da Terra e que tinham aqui ficado para ensinar as coisas boas à humanidade. Alguns os conhecem como "raça-elite", embora possam também ser denominados por outros nomes. O elixir por eles destilado era mantido em segredo de todos aqueles que não tivessem um coração puro. E era em busca desse elixir que aquela mãe havia empreendido essa longa viagem.

Cada degrau parecia querer contar uma estória muito antiga, dos vários passos que por ela passaram. Mas ela não se deteve e prosseguiu sempre para cima. No topo, havia outro salão, não tão grande como o primeiro, mas também tão iluminado. Em seu interior, havia alguns seres (não é possível descrevê-los exatamente) de aparência serena, que falavam entre si. Ao centro, havia um recipiente fumegante, do qual exalava um aroma agradável e suave. Um daqueles seres se voltou e, chamando-a pelo nome, disse que já era esperada, haviam sido avisados em sonhos de sua vinda.

- O que você está buscando chama-se AWEN ou inspiração e é a fonte e a razão de tudo o que existe. Você tem um coração puro e levará para casa o modo de prepará-lo.

Ao dizer isso, um outro ser a chamou para junto de si e começou a explicar todos os passos e ingredientes necessários para a preparação da receita que resultaria no elixir. Mentalmente, com muita atenção, anotou tudo o que ouvia, todos os cuidados, todos os preparativos, todos os ingredientes, pois sabia que não poderia anotar esses passos.

- Apenas as três primeiras gotas da fervura contém a sabedoria de todas as coisas. O restante não servirá mais.

Agradecida e após receber a bênção daqueles seres, empreendeu a sua caminhada de volta.

Planejamento

E assim começa a segunda parte de nossa estória. A mãe retorna para a sua casa no bosque e após reencontrar seus filhos e ver que estavam todos bem, planeja os passos necessários para a confecção do elixir que traria sabedoria ao seu filho querido, permitindo que pudesse se distinguir de alguma maneira.

Teria de combinar diversas ervas e raízes entre si, que deveriam ser colhidas em épocas distintas... A água para manter a fervura deveria ser extremamente pura e cristalina... Alguns frutos e flores faziam parte da combinação... Os detalhes deveriam ser minuciosamente considerados, porque cada um dos ingredientes tinha um tempo para brotar e um tempo para ser colhido, para delas obter o máximo de suas propriedades. Certos ingredientes deveriam ainda ser previamente preparados, colocados para secar ou cozidos, antes de serem combinados na fervura que resultaria o elixir.

Seria preciso ainda um caldeirão especial, grande e forte, encomendado no melhor ferreiro da cidade por um bom preço e que levou algumas semanas para ficar pronto.

Mas haviam outros detalhes que foram também levados em conta: a fervura duraria um ano e um dia, um longo tempo. Por isso, deveria haver uma boa provisão de lenha para alimentar a fogueira que aqueceria o caldeirão com os ingredientes do elixir. E por se tratar de uma tarefa demorada, seria necessário ainda contar com ajudantes, uma vez que a fervura deveria ser mexida sem parar por esse longo período de tempo. Um ano e um dia...

Depois que o caldeirão ficou pronto, ela passou a colher as ervas, raízes, flores e frutos, em seu devido tempo. Alguns ingredientes nasciam apenas no inverno e deveriam ser colhidos numa noite de lua cheia... outros brotavam apenas na primavera e deveriam ser colhidos na lua minguante... Durante um longo ano, os vários ingredientes foram colhidos e preparados segundo as instruções recebidas dos sábios.

Havia um dia certo ainda para começar a fervura. Antes disso, foi em busca de seus ajudantes. Seguindo a sua própria intuição, seguiu um caminho que conhecia no bosque e se deparou com uma pessoa madura, de certa idade, mas que havia ficado cega ao longo da vida, com um rapaz bastante jovem que lhe servia de guia. Conversando com ambos, julgou que o primeiro era suficientemente cordato para a tarefa e que o jovem contava com o vigor físico para a mesma. O cego era cego porque não queria mais ver as coisas, e por não poder mais ver, achava que tudo era igual e parecido. Tudo era uma mesmice para ele, que se tornou um chato. Ao contrário, o jovem era inocente e ingênuo, precisava experimentar a tudo que via ou ouvia falar, não tinha medo das coisas. Assim, um equilibrava o outro em seus excessos. Por isso, contratou-os.

Precisou treiná-los e assim fez. Explicou detalhadamente qual seria a tarefa de ambos, a fervura teria de ser mexida incessantemente durante um ano e um dia, não poderia haver pausa. O fogo teria de ser alimentado para manter a temperatura certa. E ainda, o caldeirão teria de ser abastecido com a água do lago próximo, sempre aos poucos, para não baixar demais a temperatura. Nisso se passaram mais duas semanas.

Havia uma última instrução: não poderiam beber do conteúdo do caldeirão, ou mesmo, ingerir uma única gota que fosse.

Ação

Enfim, depois de um longo tempo de preparativos, tudo parecia estar pronto para o grande dia em que iria começar a elaboração do elixir. A água foi posta dentro do caldeirão, a fogueira acesa, os ajudantes instruídos em suas tarefas e ela pouco a pouco, um a um, foi colocando os ingredientes que permitiriam o milagre ao seu filho. Consciente da responsabilidade, após colocar o último ingrediente, acompanhou o trabalho de seus ajudantes ao longo de todo aquele dia. Mas também no dia seguinte, e no outro, e no outro... por toda uma semana, chamando-lhes a atenção ou os estimulando, até achar que tinham compreendido a sua tarefa. Todos os dias repetiu a instrução de que não deveriam beber do caldeirão, que tomassem água do lago...

As luas foram se sucedendo, as estações se passando umas às outras...

Passou a acompanhar o trabalho de maneira mais displicente, mais relaxada, confiando em seus ajudantes. Com um controlando o outro, cumpriam bem a sua tarefa. Muitas vezes, era apenas o cego que mexia a fervura, enquanto o jovem ia buscar lenha ou água.

O grande dia chegou então... A mãe trouxe as duas crianças para que assistissem ao final da fervura, faltava apenas mais um dia para que se completasse o período de um ano e um dia. Tratava-se de um dia de grande expectativa para todos. Mas acabaram por pegar no sono, enfeitiçadas pelas chamas da fogueira, recostadas na mãe. Num dado momento, as chamas pareceram diminuir e ela ainda ordenou ao jovem que colocasse mais lenha sob o caldeirão, pegando igualmente no sono.

E, ao colocar os pedaços de lenha sob a fervura, esta borbulhou subitamente, derramando três gotas ferventes no polegar do jovem, que instintivamente o lambeu, sem pensar.

Transformação

Exatamente neste momento, o caldeirão passou a ranger e tremer, como se quisesse explodir, a ponto de, num dado instante, de fato partir-se em dois, num estrondo, derramando o conteúdo restante pelo chão, escorrendo pela grama até se juntar às águas do lago. E neste momento, o jovem havia percebido tudo, ele agora sabia tudo, ele sabia que assim que ela acordasse, cairia sobre ele furiosamente. Assim, não restava outra alternativa a ele que sair correndo, fugir para bem longe.

Mas ela acordou em seguida e ao perceber o que ocorrera, gritou desesperadamente. Ao ver o que havia sobrado da fervura derramando-se no lago, correu ao encalço do jovem, alcançando-o pouco depois. E, quando estava quase com as suas duas mãos em seu pescoço para esganá-lo, o jovem percebeu que poderia se transformar em qualquer criatura que desejasse e, apenas com um pensamento, transformou-se numa lebre.

Mas o que ele não contava é que ela tivesse esse mesmo poder e, com a mesma rapidez, transformou-se num veloz cão de caça, continuando em seu encalço. Correndo pelos campos, ela logo estava novamente muito próximo do jovem-coelho, recuperando o tempo perdido e quando ela estava para pular com suas garras em seu pescoço novamente, ambos os animais caíram num rio turbulento. Nisso, o jovem soube que tinha de se transformar num salmão, e foi o que fez. Ela então se transformou numa lontra e continuou atrás dele, rio abaixo. Quando outra vez estava para alcançá-lo, agora sabendo que poderia se transformar facilmente no que quisesse, mudou a sua forma para uma pequena ave que, agilmente alçou vôo para o céu, fugindo da mordida que lhe poderia ser fatal. Ao perceber a súbita transformação, sem hesitar, ela transformou-se num falcão, com as presas prontas para pinçá-lo. Ao notar que haveria pouca chance de se livrar dela e a poucos instantes de ser surpreendido, ao observar um sítio com algumas pilhas de grãos logo abaixo, percebeu que esta seria a sua única chance de se livrar dela e subitamente, deixou-se transformar num grão de milho, caindo e misturando-se ao já existente e armazenado. Resoluta, e notando que poderia ser enganada, mas não deixando por menos, transformou-se numa galinha e começou a ciscar no monte, decididamente, engolindo exatamente o grão em que o jovem havia se transformado.

Renascimento

Ao voltar para casa, notou que estava grávida daquele milho que havia ingerido e graças ao instinto materno, sua raiva foi sendo substituída por uma certa afeição, própria das mães. E assim, durante o período da gestação, o bebê foi ninado com belas canções, descobrindo novos segredos e deixando-se envolver pelo amor daquela mãe.

Inicialmente determinada a destruir o rebento, ao dar a luz, não pôde fazê-lo, afinal, havia carregado por um longo tempo aquela criança em seu útero. Assim preferiu colocá-lo num cesto deixado no mar, para que fosse ao encontro de seu futuro, fosse este qual fosse.

Foi recolhido por pescadores de uma aldeia distante e adotado por uma família que logo lhe botou um novo nome, Taliesin, pelo qual ficou conhecido pelo resto dos tempos. Destacou-se como um jovem brilhante e sábio, que combinava em si a sabedoria dos ancestrais e a perspicácia de uma mente lúcida e vivaz. Foi admirado por tanto quantos os conheceram ou apenas ouviram falar dele. Diz-se que conhecia todos os encantamentos e era o mais poderoso dentre todos os bardos. Era avesso a qualquer injustiça, buscando repará-la com todos os seus meios. Diz-se inclusive que Merlin havia admitido que Taliesin era o maior entre todos.

Reflexões

Não existe nada que não possa ser mudado, sempre existe uma maneira inspirada de dar um novo rumo às coisas.

Qualquer bom projeto precisa de planejamento e preparação, antes de ser colocado em prática.

A sabedoria do adulto muitas vezes "mata" a iniciativa. É preciso equilibrar essas duas características dentro de si, transformando-se, reciclando até mesmo a forma, se preciso.

Muitas vezes, o projeto segue um rumo totalmente inesperado. De qualquer modo, num dado momento, era preciso deixá-lo crescer por si próprio, ganhar vida, encontrar-se a si mesmo.

Henrique Guilherme Wiederspahn, ESQUILO FALANTE


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