Márcio
Salerno
Giancarlo K.
Schmid
Henrique G.
Wiederspahn
Magali P.
Gracio
Edna
Vezzoni
Maria Ana
Labate
Miriam C.
de Almeida




''STAR WARS'' SOB A ÓTICA DO TARÔ

Sou bastante suspeito para falar de dois temas que sempre foram apaixonantes para mim desde que os conheci: a saga "Guerra nas Estrelas" (Star Wars) e o baralho de Tarô. O primeiro tema travei contato em 78, quando o filme foi lançado no Brasil. Mas, só assisti, de fato, ao primeiro filme oficialmente no cinema em 83, cujo título foi "O Império Contra Ataca". Á época, confesso que absorvi o enredo como mais um filme de ação, com efeitos especiais espetaculares e ousados para aqueles anos. Foi nesse mesmo ano que me apaixonei pelo tarô e sua história.

Hoje, depois de certo entrosamento com as obras de Joseph Campbell, famoso mitólogo, o pensamento junguiano e o contexto simbólico, entendi a importância imagética da criação legada por George Lucas. Aliás, foi o próprio que buscou nas fontes mitológicas, inspiração para a geração da história. Lucas, inclusive, se valeu muito da ajuda de Campbell para ordenar sua obra. E se tornou o sucesso que é, graças ao resgate de temas tão atuais, repetido por inúmeras culturas do planeta, sob as mais diversas narrativas. Certamente "Guerra nas Estrelas" toca fundo no inconsciente de cada um, pois lida com fatores inerentes a nós, seres humanos, como a jornada do herói, as crises familiares, o desafio entre a luz e as sombras, a luta pelo poder, a conquista da liberdade. E acerta em cheio quando impregna os personagens, mesmo aqueles robóticos e alienígenas, com caracteres muito peculiares à nossa raça. Unindo uma boa trama e interessantes combates, "Guerra nas Estrelas" sagra-se como um filme que nunca vai ficar velho. Baseando-se nisso, temos outros sucessos como "Harry Potter", "Senhor dos Anéis" e "Contos de Nárnia" como temas que integram importantes conteúdos simbólicos ancestrais, daí esse sucesso todo, pois mobilizam a psique coletiva e ajudam-nos a familiarizar-nos com o inconsciente.

Meditando há alguns dias, resolvi criar um paralelo entre os dois temas em pauta. Tudo começou quando percebi que o elemento chave que mobiliza todos os personagens em "Star Wars", cujo nome é "Força", uma espécie de poder natural que integra e sustenta todo Universo e seres nele contidos. Obviamente, gerei um paralelo entre a "Força" do filme e a "Força", arcano do tarô. O interessante, é que essa lâmina está particularmente "no centro" de todos Arcanos Maiores. O arcano 11 (no clássico) divide o baralho em dois, é a metade, mas também parte da totalidade da jornada. A "Força", em si, é expressa como uma mulher ou homem dominando normalmente um leão. Parece que o leão, nesse caso, símbolo do ego humano, assumindo o controle, leva ao lado "negro da força". Então os personagens degladiam-se o tempo todo nos filmes, desejosos de estabelecer controle ou equilíbrio do Universo. Em "Star Wars", na primeira trilogia da saga (episódios IV, V e VI), o personagem principal é Lucas Skywalker, enquanto sua contraparte sombria é o vilão Darth Vader. Percebo Luke como o próprio Mago do tarô, um "andarilho das estrelas", desejoso em aprender e iniciar sua jornada. Mas, Vader é o próprio arcano 15, "o Diabo", é o alter poder, o próprio status quo, desejoso de controle, mas enrustido emocionalmente. Claro, um encontro entre um Mago (01) e um Diabo (15) gera uma "Torre" (16) - a quebra do padrão original e do poder ilusório (01 + 15 = 16). Nos filmes, Vader tenta destruir Luke e todos os rebeldes opostos ao Império Galático, oriundo do poder açambarcado pelo Imperador Palpatine (Darth Sidious) - o próprio arcano 04, "o Imperador". O interessante é que a tentativa do Imperador (04) assumir o controle egóico da "Força" (11), acaba desembocando no próprio Vader (15), uma conseqüência (04 + 11 = 15). Mas, Luke está também fadado a penalidades e sacrifícios, uma vez que trava contato com a Força (11), gerando um "Pendurado" (12). Ou seja, Luke é também o herói martirizado, tal como foi seu primeiro instrutor, o Jedi Obi Wan Kenobi. Luke perde uma das mãos numa batalha contra seu pai, Vader, e acabamos por voltar-nos ao arcano 16, "a Torre".

A irmã de Luke é a princesa Léia, uma representação da figura da "Imperatriz" (03). Léia é independente, vai à luta, busca seus ideais. Mon Mothma, a líder dos rebeldes, é a própria figura da Sacerdotisa (02): complacente, sábia, parcimoniosa. Vader (15) vai atrás de Léia e a persegue, pois é uma ameaça, símbolo do medo, representado pelo arcano 18, "a Lua" (03 + 15 = 18).

Yoda, o mestre Jedi alienígena, é muito bem representado pelo arcano 05, "o Papa": um instrutor, professor, condutor, moralizador. Em contato com Luke (01), coloca-o a par de escolhas a serem feitas (arcano 06, "Enamorados"), pois depende de Luke seguir ou não o lado "branco ou negro" da Força. Yoda o prepara durante a história, mas Luke deverá optar por si só por qual caminho seguir. O amigo e companheiro, Han Solo, um contrabandista esperto e sagaz, é apresentado como o arcano 07, "o Carro". Ele é em parte o herói impetuoso que "muda o karma" (arcano 08, "a Justiça") de Luke (01), ajudando-o ao longo da história, salvando-o inclusive como é narrado no filme "O Império Contra Ataca", quase morto no gelo do planeta Hoth (01 + 07 = 08). Obi Wan é o próprio "Eremita" que muda a vida de Luke (01). Desse encontro, nasce uma "Roda da Fortuna" (01 + 09 = 10).

O encontro de Vader (15) com Obi Wan (09), nasce o 06, "os Enamorados", levando novamente a trama para caminhos indecisos. Teoricamente, Obi Wan deixa-se vencer por Vader, integrando-se à Força. Luke precisa restituir o equilíbrio, completando sua jornada.

Personagens curiosos como os robôs C3-PO e R2-D2 são vistos como o arcano 22, "o Louco". São andarilhos, participam de todas as sagas, sabem de tudo, conhecem de tudo. Mas, nunca sabem exatamente onde vão parar. Eles dão um colorido especial à história.

A morte (13) do Imperador (04) começa quando o próprio Obi Wan (09) se entrega de corpo e alma à Força. É o começo do fim, e isso fica muito explícito na história. E Vader (15) só consegue se libertar (20, "o Julgamento") do lado negro da Força, quando o conhecimento de Yoda (05) faz todo sentido na trama. Vader vive um dilema entre preservar seu filho (Luke) ou destruí-lo. Vader (15) e o Imperador (04) vivem uma aparente e bem sucedida vitória na maior parte do tempo da trama, representado pelo Sol (19). Esse arcano pode "cegar" certamente aquele que não está realmente do lado da luz... Vader (15) só se reintegra à luz (21, "o Mundo"), quando decide fazer sua própria escolha (06).

Aliás, a esperança, tônica central do primeiro filme (Uma Nova Esperança), representada pelo arcano 17, "a Estrela", só ganha significado e sentido após cada personagem fazer sua própria escolha (06). "Guerra nas Estrelas" é um mito moderno onde a opção certa, com certeza faz a diferença!!!

Giancarlo Kind Schmid, CORUJO GRISALHO


 volta

® 2010 Arte Antiga - Todos os direitos reservados
Desenvolvido por InWeb Internet