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''O Código Da Vinci'' politicamente correto

Milhões de livros vendidos. Bilheteria milionária. Certamente Dan Brown acertou "na mosca" ao trazer à baila temas com forte apelo simbólico, histórico, religioso e psicológico. A obra "O Código Da Vinci" não passou desapercebida por muita gente, mesmo tratando-se de uma "ficção". O enredo policial pode até estar "batido", mas o contexto da narrativa faz uma espécie de confrontação ideo - religiosa: até que ponto o cristianismo não "sufocou" (apagou) com mentiras (manipulações) toda uma tradição milenar de importantes culturas do passado? De fato, muitos elementos na obra são irreais, imaginários, e estes, são o maior alvo de ataques de algumas correntes religiosas conservadoras. O engraçado, é que a Igreja contestou a relação de Cristo com Maria Madalena, os apontamentos históricos quanto às Cruzadas, Concílios e as sinalizações nas obras de Leonardo Da Vinci, preocupou-se em poupar a imagem do Cristo (que embora tenha encarnado como homem, visto como "Filho dileto de Deus" não poderia se "contaminar" com os desejos do mundo terrestre, tal como o sexo), buscou brechas para explorar algumas falhas na história, mas ninguém se pronunciou sobre uma única coisa: o quanto a(s) Igreja(s) explora(m) financeiramente e negocia(m) "em nome do Altíssimo". Dan Brown pode ter se equivocado em um monte de coisas, mas nisso foi tão certeiro que ninguém teve coragem (ou pelo menos capacidade) de apresentar como uma informação enganosa.

Tratando-se de uma ficção, uma obra romanceada, é incrível como incomodou a tantos. Seguiu-se uma onda de protestos tão grande em alguns lugares do mundo, que poderíamos estar presenciando situações muito similares àquelas ocorridas na Idade Média, quando algumas obras consideradas "hereges" foram queimadas em praça pública, movimento esse repetido pelos nazistas durante a Segunda Guerra Mundial, como forma de apagar vestígios da cultura judaica e dos pensamentos relativos à mesma. Quão interessante é a forma que alguns grupos verdadeiramente fanáticos se comportam, lembrando também a queima da Biblioteca de Alexandria, mantendo a humanidade emburrecida por mais alguns milênios. Dan Brown, de alguma forma, "mexe em antigas feridas da Igreja, ainda não cicatrizadas" mostrando que a hipocrisia faz parte do modelo religioso, onde é preciso poupar a imagem de Deus, mas não viver sinceramente seus ensinamentos. Aquela velha historinha do "faça o que eu falo, mas não faça o que eu faço!".

Intencionalmente ou não, Brown foi capaz de mostrar que "toda moeda tem duas faces". Estamos vivendo uma retomada (lenta e gradual) dos movimentos pagãos pelo mundo, a Deusa está a mostrar novamente a sua face, a era da informação, de alguma forma, ressuscitou as antigas "bruxas", outrora assassinadas nas fogueiras das vaidades religiosas, afogadas nas lágrimas de suas famílias, torturadas nas câmaras do emudecimento da verdade. O ribombar das portas dos antigos templos é ouvido ainda ao longe, mas aos poucos se faz presente e incomoda as atuais e duvidosas tradições religiosas.

O autor pode não ter escrito uma obra genial (muitos trechos são excertos de vários outros livros que tratam de temas como o "Santo Graal", "Simbolismo Pagão" e de "Maria Madalena"). Porém, tal como o vivo Paulo Coelho (que escreveu "O Alquimista" baseando-se em obras já existentes, inclusive as de Khalil Gibran), conseguiu sintetizar alguns pensamentos, como a importância dos símbolos como meio de comunicação humana, como já o fez, décadas atrás, o psicólogo Carl Gustav Jung e o mitólogo Joseph Campbell. E despertou a curiosidade daqueles sedentos pela verdade, desejosos de "tirar os véus" da realidade e conhecer os fatos. Isso, naturalmente, tornou-se um tormento para algumas igrejas, uma vez que a preocupação do regime religioso, é manter o indivíduo ignorante para mantê-lo servil: assim é mais fácil que siga as regras da instituição e forneça a ela dividendos para sustento de alguns "sacerdotes".

Um outro fato que considero salutar na obra, é que ela induz a buscar fontes históricas. Não temos uma tradição nacional em preocupar-se com a História de uma maneira geral, mas, segundo algumas fontes de pesquisa virtuais, nunca houve antes uma procura tão grande em sites de busca por datas e eventos históricos, descritas no livro. Interessante como a cultura se comporta, porque ela também nasce da curiosidade, da vontade em investigar, de procurar consistência nas informações. E induz ao turismo, fazendo com que muitos visitem os lugares onde transcorreram alguns eventos importantes na trama.

Antes de Brown, muitos sequer poderiam explicar do que se trata um "simbologista" ou uma "criptóloga" e, ainda, um criptograma. Alguns ficaram sabendo que Leonardo Da Vinci não pintou apenas a Monalisa e a Santa Ceia. Muitos não sabiam, até aqui, o que era a "Opus Dei". E ainda, que existe uma igreja templária com efígies de guerreiros bem no centro de Londres! Estimula a imaginação ao revelar símbolos encontrados no tarô, na arte e em monumentos.

Verdade seja dita: o livro pode não ser "o maior dos best sellers", mas encanta pela capacidade de mostrar algumas coisas óbvias: que não sabemos a verdade de todo, que somos ainda ignóbeis intelectualmente em relação a importantes fatos históricos, e que a maioria das pessoas só consegue ler um livro até o fim quando ele é excessivamente divulgado pela mídia, tornando-se chato saber que todo mundo leu, menos a pessoa...

"O Código Da Vinci" é uma obra politicamente correta, podemos assim dizer!

Giancarlo Kind Schmid, CORUJO GRISALHO


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