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DESMISTIFICANDO O TARÔ (FUTUROLOGIA X AUTOCONHECIMENTO)

Normalmente, a maioria das pessoas reconhece o tarô apenas como um baralho com figuras bonitas e curiosas, útil para saber sobre o futuro. No entanto, toda sua história, seu simbolismo, técnicas e métodos, prova que está muito longe de ser, apenas, um instrumento oracular de ação previsionária.

A herança que obtivemos do baralho, que certamente o popularizou e o tornou ímpar, surgiu de movimentos e promoções do meio ocultista, sob os mais famosos nomes do meio, a citar Eliphas Lévi, Papus, Ouspensky, Oswald Wirth, Mc Gregor Mathers, Arthur Edward Waite, Aleister Crowley, George Ottonovich Mebes, C. C. Zain, dentre outros. Não tirando os devidos méritos pelos esforços de cada um e nem o aspecto "mágico-transcendente" que o baralho ganhou, precisamos hoje questionar algumas idéias que vêm sendo difundidas há anos no meio tarológico. A primeira refere-se ao próprio baralho: sua origem e etimologia do nome é objeto de discussão e contestação que já segue por mais de dois séculos. Fundamental esclarecer que algumas teorias foram derrubadas e alçam a pesquisa para outros campos.

Desde o advento ocultista do tarô, surgido no século XVIII pelas idéias de um famoso pastor e enciclopedista francês de nome Antoine Court de Gébelin (1725-1784), propagadas por um esforçado pesquisador, outrora professor de álgebra e peruqueiro de nome Alliete (Eteilla), o baralho passou por anos com a fama de velar codificadamente todo conhecimento da cultura egípcia. Além disso, o termo do "TAROT" fora explicado por Gébelin, pela origem (contestada) dos radicais TAR (rei ou real) e RO, ROG ou ROS (estrada, caminho), dando o significado ao mesmo, como "Estrada Real da Vida". Mesmo após o egiptólogo Champolion decifrar a Pedra de Rosetta e provar que a teoria de Gébelin era equivocada, a moda do "tarô vindo do Egito" havia pego e dificilmente a maioria se desfaria dessa cômoda "descoberta". Também convém derrubar a teoria que, outrora, apontava que o baralho tivesse chegado à Europa pela mão dos ciganos, já que as cartas já vinham sendo objeto da atenção de nobres há mais tempo. Há inúmeras obras que dão "supostas gêneses" ao oráculo, todas sem comprovação e consistência. O fato é que a fantasia e imaginação foram relevantes para trazer o baralho até os dias, do contrário, poderia (quem sabe?) ter caído no esquecimento.

Tudo o que podemos pensar sobre o tarô, resume-se à sua expressão: a simbólica. De nada adianta acreditar em teorias mirabolantes, se não formos capazes de esmiuçar a natureza dos símbolos. A iconografia presente nas cartas (ou lâminas) não é fruto do acaso e, certamente, traz consigo todos os sintomas de uma época e que jamais deixaram de ser tão atuais. O símbolo é a linguagem ancestral da humanidade, antes do estabelecimento de uma "lógica lingüística". Logo, lidar com o tarô é entrar em contato com a mais pura fonte de conhecimento universal. As imagens são melhores absorvidas que as palavras, daí o baralho mexer tanto com algumas pessoas.

Considerando sua natureza simbólica, com o surgimento da moderna Psicologia, o tarô passou a ser analisado com "outros olhos". Embora não seja aceito no meio acadêmico e ainda sofrer os preconceitos de alguns, progressivamente vêm aparecendo grupos de pesquisadores determinados a investigar o poder por trás das figuras. Posso considerar que isso não seria possível, se não fosse pela ação de um conhecido pesquisador e precursor nos meios psicológicos de nome Carl Gustav Jung (1875-1961). Embora não tenha dedicado muito tempo ao tarô, deixou um legado incontestável, validando a importância dos símbolos na vida humana, os efeitos sobre a psique e o poder transformador dos mesmos. O pesquisador chega até a citar o tarô no livro "Os Arquétipos e o Inconsciente Coletivo" (Ed. Vozes), apontando: "(...) as imagens do Tarô derivam dos arquétipos da transformação (...)". Jung se referiu às imagens do baralho como um arcabouço da linguagem universal, com poder transformador.

Todas as pesquisas no meio partem do mesmo ponto: os símbolos podem ser um válido veículo de acesso ao inconsciente. Talvez, em parte, isso explique sinteticamente como alguns tarólogos conseguem penetrar no mundo do consulente. E toda experiência que remete ao rito do tarólogo com as cartas e o envolvimento com o consulente, baseia-se no princípio da sincronicidade, onde o acaso não existe e toda experiência vivenciada está condizente com o momento único do consulente. Para simplificar: mesmo que pareça aleatório o embaralhamento e escolha das cartas pela pessoa, há uma sensível sintonia relativizada pelo momento que a pessoa vive e a sintonia com determinadas cartas. Somos verdadeiramente "atraídos", mesmo que inconscientemente, a selecionar as cartas para montagem do método e consequentemente sua leitura.

O valor de se prever o futuro passa a ter menos importância, quando o foco passa a ser o autoconhecimento. A procura que as pessoas fazem hoje do baralho, está cada vez mais motivada pelo interesse que cada um de nós tem pela nossa natureza interior, motivações, anseios e/ou buscas. Ou seja, não foi perdido o interesse pelo futuro, mas a maneira de conhecê-lo está fundamentada na orientação de nossos atos e escolhas, já que o futuro é produto de toda uma equação, envolvendo escolhas passadas e presentes e situações, oportunidades e desafios do caminho a ser trilhado. O baralho entra aí, então, como uma "bússola", auxiliando-nos para uma vida satisfatória, baseada na escolha consciente.

Alguns acabam perguntando se o tarólogo precisa ser dotado de "poderes especiais" ou venha a incorporar espíritos para destinar a leitura das cartas. Devo frisar que não, pois partindo da premissa que a linguagem do tarô é puramente simbólica, é possível que qualquer um possa aprender a manipular essa "original ferramenta", conquanto se disponha a estudar e pesquisar seriamente, como é comum em qualquer área. A pessoa tem que ter interesse e gostar do assunto, do contrário, cai no risco de tornar-se apenas mais um "jogo de salão". É preocupante como alguns, levianamente, transformam o baralho em "brinquedo advinhatório", e passam a querer descobrir coisas ou situações, com fins duvidosos. Há pessoas que ainda pensam que o tarô é para "indicar números da loto ou confirmadores de traições de esposos e esposas". Sinceramente, acredito que a desinformação passa a macular a verdadeira (e séria) proposta desse instrumento.

Cada Arcano do tarô é como se fosse uma estação da alma. Reúnem por si mesmos, os variados caminhos que trilhamos em nossas vidas e como reagimos a eles, e ensinam-nos a administrar cada um dos momentos que vivemos. Daí um aspecto terapêutico presente no baralho, pois a compreensão sobre a trilha e o entendimento das feridas é salutar, permitindo um restabelecimento interior. Importante ressaltar que existem inúmeras maneiras de se acessar o tarô, não só através de leituras (tradicionalmente), mas também através de exercícios de meditação e visualização, vivências, associações livres, práticas artísticas e até ludicamente falando.

A partir de agora, não olhemos o baralho apenas como um possível "catalisador do futuro", mas como um recurso poderoso para adentrarmos na essência anímica e capturarmos respostas para aquilo que, muitas vezes, não conseguimos enxergar...

Giancarlo Kind Schmid, CORUJO GRISALHO


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