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A ÁGUA NO TAROT

O tarot tem a qualidade de agregar um grande variedade de imagens simbólicas, que combinadas entre si expressam a dimensão de cada Arcano. Podemos ver alguns símbolos se repetindo em outras lâminas, sugerindo novas interpretações para o mesmo, completando o cenário em sua ilustração. Nenhum símbolo encontra-se lá por acaso: serve como ponte entre as diversas combinações entre Arcanos, afirma alguns significados e amplia outros. O tarot é como uma grande história em quadrinhos, onde precisamos dar vozes aos seus personagens e elaborar uma enredo. Nesse caso, são seus símbolos que estabelecerão parâmetros para tal.

Um dos símbolos que surge com certa insistência entre os Arcanos Maiores é a água. Elemento vital, sempre foi cultuada entre as mais antigas tradições, como meio de purificação, centro de regenerescência e fonte de vida. A vida surgiu da água, permanecemos 9 meses dentro dela antes de nascer, nosso corpo é ocupado em sua maior parte pelo elemento, além de nosso planeta. A água ocupa lugar de honra entre os mitos, lendas, fábulas e nos próprios sonhos, pois é uma imagem tão ancestral que é impossível dissociá-la de nossa jornada humana.

Há quatro Arcanos que se reportam ao símbolo: “A Temperança”, “A Estrela”, “A Lua” e “O Sol”. Podemos encontrar uma oposição entre as lâminas a partir da análise do símbolo: no Arcano “A Temperança”, a água é mantida em ânforas jogada de um lado a outro, enquanto no Arcano “A Estrela” é despejada para o solo, deixando os recipientes. No Arcano “A Lua”, a água se mantém represada num lago, enquanto o ar parece transparecer o sereno em forma de gotas que retornam à Lua, enquanto no Arcano “O Sol”, a água liberta está sob a forma do fresco orvalho da manhã, despejada sobre a terra e rio. O antagonismos sugerem o fluxo ou não desse elemento.

Analisando a primeira oposição simbólica dos Arcanos, a ânfora (presentes nos Arcanos 14 e 17) simbolizará o receptáculo anímico, que encerra as experiências humanas. No tocante à Temperança, o processo de alternância da água de um lugar a outro representa a mistura para encontrar a combinação ideal. Temos aí a imagem do processo alquímico, da mistura de substâncias para se obter a matéria perfeita. Porém, o fluxo mantêm-se inalterado, dando-nos uma idéia de repetição de um processo. Nesse caso, a água entra como elemento de transmutação, representando uma espécie de “transfusão espiritual” e ablução. É comum ao tentarmos eliminar certas impurezas de um recipiente, que joguemos água dentro dele e a sacudamos para eliminá-la a seguir. Tornamos a encher novamente de água para repetir o processo. Fazemos isso até nos certificarmos que o recipiente está limpo. A água da Temperança tem a função de remover resquícios de uma putrefação registrada anteriormente (Arcano “A Morte”) e com isso preparar o “recipiente pra receber uma nova substância”. Essa água se mantém serena, imutável, destilado para novamente voltar ao seu recipiente de origem. Essa não é uma água boa de beber, já que o ato de mantê-la presa nas ânforas a torna salobra. Partimos do princípio que a água da Temperança é exclusivamente para limpeza e purificação, a água do banho, da lavagem (apropriadamente referente ao corpo físico). Não é desperdiçada uma gota sequer dos recipientes, dando-lhe uma importância especial e raridade. Por que deve-se utilizar a mesma água no processo ? Porque a água deve preservar traços originários do processo de transmutação, que não devem ser perdidos. O anjo do Arcano preserva de alguma forma a experiência primordial que não deve ser perdida no desenvolvimento. Espera-se para se obter pacientemente uma nova ordem ou equilíbrio.

Na oposição arcanológica, a Estrela faz exatamente o contrário: verte a água para o solo e para o rio. A mulher desnuda humildemente entrega o elemento ao seu lugar de origem. O fato de jogar a água na terra (fertilização) e no rio (comunhão), afirma a idéia do batismo. Na Temperança, a água “purifica o corpo” para o espírito poder manifestar-se livre, enquanto na Estrela, a água “purifica o espírito” para poder elevar-se a Deus. A entrega do elemento à natureza, sugere o retorno às origens. Toda leveza é proporcionada pelas águas do Arcano, uma vez que há liberdade na fluidez. Aqui o elemento não se apresenta como componente (al) químico, e sim natural. Percebe-se isso no próprio ambiente da lâmina: o céu aberto estrelado, as árvores, o rio, a ave. O fato de a água unir-se a terra sugere o intercâmbio entre mundos diferentes. Logo a harmonia é conquistada a partir do contato com os opostos. Note que a terra não absorve a água, mas dá suporte para que ela encontre meios para ela correr livremente. Temos também implícito o simbolismo do nascimento revelado a partir da imagem da mulher desnuda diante do rio. A água da Estrela encerra a continuidade da vida, dos acontecimentos, dando vazão a uma tranqüilidade, paz e suavidade, espelhando confiança no porvir.



A segunda oposição é o eixo “Lua-Sol” e reflete um outro estado da água. No Arcano “A Lua” a água está represada, sugerindo estagnação. Essa é uma água escura, profunda, simbolizada pelo lago. Eis a representação do inconsciente, dos mistérios encerrados na psiquê humana. Essa é uma água que propicia surpresas, tal como o lagostim que surge na superfície. Que perigos essa água esconde? O elemento aqui não limpa ou purifica, não flui nem escorre: mantêm-se inerte, como uma silenciosa armadilha à nossa espera. Encontramos aí o depositário de nossos medos, de nosso “lixo pessoal”, onde reprimimos sentimentos ou evitamos encarar situações de frente. Mas essa é também uma água para contemplação, para meditação. Essa quietude favorece a voz interior. As gotas que se dirigem ao astro refletem uma ação vampírica. O sereno da noite cai silencioso, invisível, encharcando o ambiente pouco a pouco. Essa é uma água invisível, que se confunde com o ambiente, enganando os olhos. É a água das profundezas da alma, dos sentimentos que desconhecemos em nós, do oculto.


Já o Arcano “O Sol” temos a água que reflete a luz solar. A água que surge orvalhada pela amanhã, simboliza o novo dia, a alegria de viver. Tão sutil como o sereno noturno, mas visível e absorvido nos primeiros raios de sol da manhã, reflete a expressão mais sutil da água. Enquanto na Lua, o sereno cai e ensopa a terra, aqui ele é despejado e comemorado como uma fina chuva fertilizadora. É uma água totalmente pura por excelência, radiante, salvadora. Eis o símbolo da consciência e plenitude. Essa água revivifica, pois é uma expressão da divindade. Diferente do aspecto lunar, não há lago para reter, apenas crianças para receber a dádiva do céu e regozijar-se diante da luz maior. Aqui a doação da água não passa por mãos humanas como a Estrela e sim, vem do plano celeste como uma benção.

A água representa nossos sentimentos e está associada ao naipe de Copas, através dos Arcanos Menores. A copa ou taça é o recipiente que recebe/armazena o líquido, revelando sua qualidade receptiva. Tem relação com o Graal e com a Fonte da Juventude. A água aí depositada nos leva ao mundo dos sonhos e do amor. Percebemos então uma outra esfera relacionada ao elemento.

A forma que um símbolo se apresenta no tarot é de suma importância, devemos estar atentos ao seu significado para enriquecermos ainda mais a leitura das lâminas.

Referências bibliográficas:

1) Dicionário de Símbolos – Jean Chevalier e Alain Gheerbrant / Ed. José Olympio
2) Tarô, Ocultismo e Modernidade – Nei Naiff / Ed. Elevação.
3) The Encyclopedia of Tarot – Vol I – Stuart R. Kaplan / US Games Systems Inc.

Ilustrações:

1) A Temperança – Conolly Tarot Deck by Peter Paul Conolly - US Games Systems Inc
2) A Estrela – Morgan Greer Tarot by Willian Greer e Lloyd Morgan - US Games Systems Inc
3) A Lua – Rider Waite Tarot by Pamela Colman Smith -US Games Systems Inc
4) O Sol – Oswald Wirth Tarot by Oswald Wirth -US Games Systems Inc
5) As de Copas - Rider Waite Tarot by Pamela Colman Smith -US Games Systems Inc

Giancarlo Kind Schmid, CORUJO GRISALHO


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