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As mitologias ilustram de forma singular a vida humana. Traduzem todos anseios e necessidades anímicas, além de simbolicamente dramatizarem os ciclos naturais (humanos e universais) através do panteão dos deuses, heróis e bestas em suas maravilhosas sagas. Em particular, a mítica grega é especialmente romântica, pois poeticamente nos ensina a essência da vida pela narração metafórica que fala fundo à nossa psique. Todo mito tem sua cosmogonia, ou seja, o Big Bang mítico, o Fiat Lux ("Faça-se a Luz") bíblico. Quanto aos gregos, por terem sido diversos os narradores, há uma grande variação de mitos que dão ênfase à origem do Universo e dos deuses. Sempre preferi Hesíodo, por sua narrativa singela e interessante, que nos prende muito ao contexto mítico. Segundo ele, no princípio havia o Caos, o abismo absoluto, o nada. Do Caos se origina Eros, Deus do Amor, como é descrito:
Terra de amplos seios, de todos sede irresvalável sempre, dos imortais que têm a cabeça do Olimpo nevado, e Tártaro nevoento no fundo do chão de amplas vias, e Eros: o mais belo entre deuses imortais, solta – membros, dos deuses todos e dos homens todos ele doma no peito o espírito e a prudente vontade." (Hesíodo, Teogonia, A Origem dos Deuses, Sec. 7 a.C.)
E não é por acaso que é filho do Caos. Eros, a representação do Amor (o Cupido romano), homogeneiza a essência humana, ao mesmo tempo que confunde, deixando-nos à deriva de nossos próprios sentimentos, entorpecendo a razão e a lógica. Eros é uma representação de um amor um tanto físico, pois deriva do desejo e da paixão, longe das esferas mais sutis de Philos e Ágape, respectivamente, o Amor Fraternal e o Amor Universal. Esse poderoso sentimento divide nosso ser e nossa existência quando a necessidade da entrega nos faz partilhar com o outro. Mas o amor puro como Eros, absoluto não se realiza sem sua sombra, Anteros. Parece inevitável a luta contra o dualismo que os gregos já pregavam, já que toda divindade bem-intencionada (na verdade, os deuses eram destituídos de moral) tinha sua contraparte... vide Afrodite/Ares, Zeus/Cronos, Ártemis/Hécate, além dos heróis e anti-heróis. E não é diferente com Eros; enquanto é ele que inspira ou produz esta invisível simpatia entre os seres, para os unir em outras procriações, Anteros gera os desafetos, separa, gera antipatia e aversão. E, incrivelmente, partem da mesma origem: o Caos. E não são absolutamente em nada diferentes em poder: a capacidade de fazer acontecer é igual para ambos. Meditemos, então, porque o Amor e o Ódio nascem do Caos. Parece significante a importância que os gregos deram a essa narrativa, já que fora do mundo dos sentimentos vivemos no vazio absoluto. Raiva, amor, tristeza, alegria, dentre outros sentimentos, é que movem a vida. Por isso mesmo, Eros provocou a união de Urano (o Céu) com Gaia (a Terra), dando origem à toda saga do Olimpo. Mas, bestialmente, Anteros provocou também a ruptura de Céu e Terra e provocou a maior crise cosmogônica que já se conhece. Por incrível que pareça, é assim que muitas vezes conduzimos nossa vida afetiva. Dentro de cada um de nós convive Eros e Anteros. Todos, sem exceção, sonharam (e sonham) conhecer a sua metade da laranja. Mas, por que muitas relações não dão certo? A verdade é que não sabemos ainda nos relacionar, mesmo depois de muitos avanços tecnológicos da humanidade, questões básicas como cumplicidade, compreensão, respeito, carinho e igualdade ainda passam longe de 90% das relações afetivas. Não sabemos educar Eros e Anteros ao longo de nossa vida, e voltamos irremediavelmente a mergulhar no abismo de nossas incertezas, inseguranças, frustrações e amarguras. Amar, assim como viver, é uma arte; decerto um não vive sem o outro, pois, como dizia nosso poeta Vinícius de Moraes:
Vem de noite, vai de dia, É uma alegria e de repente Uma vontade de chorar"
Quantos de nós já não estivemos enganados quanto aos nossos sentimentos (sem contar as pessoas que acabamos por conhecer)? Eros é assim: encanta, e vem Anteros e desencanta. Mas o contrário também acontece: sabe aquela pessoa que a gente não ia com a cara? Pois é, um dia a gente tem a oportunidade de bater um bom papo com ela e acaba simpatizando (e até amando em alguns casos). Eis o mistério do amor: transmutar o bruto, o bestial, o instintivo em poesia. Aliás, a vida sem poesia é só prosa. Educar Eros e Anteros é uma tarefa árdua, mas vale a pena. O primeiro desafio é exatamente não saber quem é a outra pessoa que estamos nos envolvendo ou acabamos por nos envolver. É uma verdadeira Caixa de Pandora, pois, do outro lado do enredo, há também um Eros e Anteros deseducado na maioria das vezes. Um Eros deseducado (infantilizado), por exemplo, leva a pessoa às paixões desenfreadas, algo do tipo: "te conheci agora, vamos para a cama...", empurra a pessoa para múltiplas relações sem sucesso, idolatra o outro a ponto de se anular, gasta muitos reais dando jóias, roupas caras e levando a lugares chiquérrimos, acreditando estar garantido o afeto, além de manifestar maneiras de monopolizar a relação; já Anteros deseducado, gera todos os medos e dúvidas na relação, o egoísmo, espera o pior do outro, amargura em frases como: "Basta! Nunca mais vou me relacionar!", induz à raiva nas relações, cria as famosas brigas e discussões por bobagens, algo como "Você apertou o tubo de pasta de dente no lugar errado" ou "Você não vai sair com essa roupa", enfim, sabota de todas as formas uma relação, mudando a famosa frase meu bem para meus bens após uma separação. A verdadeira tônica para educar Eros e Anteros é a amizade. Não acredito que Eros seja trabalhado sem a ajuda de Philos, o sentido de fraternidade. Sempre costumo recomendar aos meus clientes: "Antes de entrar de cabeça na relação, tente formar uma amizade, conhecer melhor a pessoa!". Afinal, é um absurdo saber de casos de pessoas que se relacionaram durante anos, que, depois que a relação não vingou, sequer manteve uma amizade entre elas. Que mundo é este em que vivemos? Isso mostra que Anteros foi sempre mais forte, neste caso, que Eros. A amizade é a melhor forma de se estudar, entender e alcançar a outra pessoa, para daí se pensar numa futura relação afetiva. E a amizade deve prevalecer antes, durante e depois, mesmo que não role algo mais. Aproveitemos, então, esta fase para refletirmos sobre o Amor, que não merece apenas um dia, mas todos. Lembremos também das palavras do Mestre Jesus: "...o Amor, esse é o meu único Mandamento", ou da Carta de Paulo aos Coríntios, uma ode ao Amor verdadeiro: "o amor não se enciúma, não se ensoberbece, é benigno e é caridoso". Claro que uma dosesinha de ciúme não faz mal a ninguém, mas não vamos exagerar a ponto de deixar Anteros fazer a festa quando o dono é Eros!
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