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O festival do início da 1ª colheita, que se dá durante a inexorável morte do Sol, dentro do tempo da Grande Espera.
Tempo de duração no Hemisfério Sul: de dois de fevereiro a vinte de março. Dedicado a Lugh - filho de Cian dos Thuata dé Dannan, e de Eithne, filha de Bolor (rei dos fomors) - conhecido como o Deus-Sol. E à Morríghan (morrigán): a Grande Rainha; Grande Mãe; Rainha das Fadas; Grande Deusa Branca; conhecida como a Ceifeira, também associada a Dana, a Grande Mãe da tribo dos Thuata dé Dannan. Este é o festival (sabbat) da busca do conhecimento, armazenado no mistério da vida e da morte (pão). O doce, das polpas da goiaba, com os nacos das maçãs, borbulha no tacho, sobre o qual, a colher de pau, descansa atravessada nas bordas. Ali perto, no milharal, espigas de milho são colhidas para o bolo, e o sacrifício. Homens, mulheres e crianças as colhem, com a satisfação da colheita, estampada em seus semblantes. Agora desanuviados. Em meio ao terreiro, comum à todas as casas da aldeia, a fogueira das madeiras sagradas está montada. Aguardando a noite, e o fogo, que será ateado as achas, besuntadas, com a gordura dos patos selvagens. Em meio ao fogo que se elevará servindo de farol, para os caminhos do Deus, iluminar, a fim de que ele possa, entre a luz e a escuridão do mundo, caminhar, o pão (corpo do Deus) será atirado. Para que o fogo transmute, e leve para muito longe da aldeia, os males, as pragas que assolam as plantações... Depois os filhos da Deusa irão partilhar do pão e do vinho, e ao redor da fogueira irão celebrar. Dançando a dança da vida, e da morte, em honra e gloria à Mãe Terra que os alimenta, e ao Deus Pai Sol que lhes concede a vida. - Estou deitada. Resvalando para o mundo dos sonhos. A visão surge em uma fração de segundos, após rasgar as cortinas do tempo, nos mundos entre os mundos. Uma imponente Lua cheia surge por entre os pinheiros, vestida de nuvens, e nela a Deusa caminha... Ouço nitidamente a sua voz dizendo: - Caminho pelas alamedas floridas, e vou em direção aos campos, onde os homens colhem os primeiros frutos da sua plantação. Enquanto caminho, serena e resoluta, em direção à colina, percebo que o sol que me banha e me fertiliza, já não é tão intenso assim... Ao longo do caminho, vou recolhendo as flores da minha echarpe, das quais fiz um tapete, por onde ele pisou a fim de vir aos meus braços, e principio a me despir, do meu vestido vermelho. Aquele que confeccionei para o solstício do verão. Sento-me, passivamente na relva. E do topo da colina, observo emudecida, o horizonte. O céu e as nuvens, tingidas pela sua força vital, se esvaindo... Ele acabou de deitar-se comigo, eu necessitava da sua energia, da sua vida, para que uma nova vida pudesse crescer em meu ventre. E para que isto pudesse ocorrer, ele, gentilmente, através da união dos nossos corpos, transferiu sua força para mim. Então, eu observo o manto da noite chegando... Deste momento em diante, ele brilhará a cada novo dia, com menos intensidade, e a minha sombra será mais intensa, pois é no escuro que a vida é preparada. Chamam-me de a Ceifeira Cruel. No entanto eu me visto de preto. Meu coração se encontra enlutado, e enquanto "o" embalo sem vida em meus braços, lamento e choro a sua partida... As águas que dos meus olhos vertem, vão aos poucos restituindo vida ao corpo inanimado do meu eterno filho e esposo, que neste momento, é o próprio Pai Natureza: O Pão da vida que nutre os corpos, e os espíritos, de todos os seres. Sei que sou a Senhora das Trevas, e o sou porque "ele" me abandonou. "Ele" reinou supremo, mas agora, sou eu, à noite quem reinará. Deste momento em diante, o poder da sua Luz irá diminuir até o frio do solstício de inverno dominar o mundo. Minhas lágrimas banham o corpo deste homem, cujo espírito me deixou... Ele viaja para as terras do verão, enquanto a sua semente dorme novamente em meu ventre. Lamento a sua perda, e, no entanto celebro, pois sei que no coração da escuridão do solstício do inverno, ele renascerá como meu filho. Enquanto me separo do meu amado, e entrego o seu corpo, a terra, busco ensinar aos homens, quais dos seus atos, ou dos seus sacrifícios, podem aliviar os seus males, e assim evitar maiores danos em suas plantações - que não me levem ao pé da letra, e entendam que quando me refiro às plantações, não estou vislumbrando apenas o lavrador que deposita a semente nos sulcos da terra, e sim, tudo o que os meus filhos semeiam através dos seus atos e das suas palavras. -, e incito meus filhos a caminharem pelos campos, para neles encontrarem os primeiros frutos da "sua" safra. E os induzo a refletir aninhados no calor dos seus corações. Na plenitude de suas almas. O que foi que você semeou ao longo do ano que passou? Suas sementes foram às sementes que propiciam uma boa e alegre colheita? Ou não! O que foi que você projetou para a sua vida, consciente, ou inconscientemente. Fracassos, derrotas, traições, desamor, medos, mágoas, ressentimentos, intolerância, doenças? Ou você projetou, e de fato trabalhou incansavelmente, o seu quinhão de terra para receber de Mim, os frutos coloridos do amor, da fidelidade, do respeito, da generosidade, da saúde, da honra, da gloria, da vitória, das grandes realizações? Pergunto a vocês meus filhos, o que semearam, porque é isto o que vocês irão colher neste festival. Ninguém pode colher bonança se semeou para si, os ventos das abismais tempestades! Ninguém pode culpar o outro, por aquilo que lhe acontece, pois cada um é o único responsável, por aquilo que cultiva, ou que permite que cultivem em seu quinhão de terra. Venho ensinando aos meus filhos que esta é a época de colher as recompensas. Sabendo que para colher, devemos sacrificar e o calor e a luz devem ceder lugar ao inverno. E é no frio, no lado oculto da vida que se encontram os nossos temores, e é em direção a eles que vocês devem caminhar, pois só assim a luz voltará a brilhar. Em suas vidas. Mergulhem em vossa escuridão interna, e se aninhem nos braços silenciosos da noite. Coloquem pão fresco em vossos altares e frutos, e sementes. Façam com que a chama de uma vela de cor laranja arda até Mabom. Vertam vinho, ou suco de uva em suas taças. Em meio às flores do campo, não se esqueçam dos ramos de trigo, e permitam que o aroma do incenso de jasmim embriague as suas almas. Inscrevam as palavras (ou figuras simbólicas) no corpo da vela, expondo seus medos ou obstáculos que desejam transpor. Ao acendê-la digam: "Enquanto a chama arde, cresce e se eleva; que se eleve em mim a certeza de que semeio hoje, um amanhã melhor. Enquanto a chama consome a cera, e com ela as palavras nela inserida, que (por ex: meu medo) também se vá. Que retorne ao nada. Que nunca mais possa me influenciar". Ao colocarem o pão sobre o altar, digam em prece: "O milho foi ceifado. O Deus se sacrificou para a todos, alimentar. O sol enfraquece e o Deus caminha para a morte. Mas o grão do milho, é a própria essência do Deus, cuja vida renascerá das novas sementes plantadas, porque a Vida nunca Morre. Sempre renasce". Em seguida, coma do pão da sabedoria e partilhe dele com os seus familiares ou amigos. Não se esqueçam de que entre todos os grãos, o milho é o principal, e que de todos os frutos, o cacho de uvas não deve faltar. Agora, deixem-me prosseguir em meu lamento pelo meu amado, enquanto no topo da colina, com as palavras sagradas, teço a vida do filho que "ele" plantou em meu ventre. Aqui, estarei até que "ele" venha me buscar, em Mabom, quando voltarei a falar com vocês... Até lá, caminhem envoltos pelo meu manto de onde recebem o meu amor. Incondicional. Bênçãos minhas, Morríghan e de Lugh, o Deus do Sol. Feliz encontro! Feliz partida, e feliz encontro novamente.
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