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SOBERANIA, A GRANDE MÃE

A mãe esteve esquecida. Por muitos e muitos séculos.

Ela nunca se afastou de nós. Fomos nós quem a relegamos ao esquecimento. E mesmo no nosso esquecimento ela nos amparou. Como Grande Mãe, Abnegada e Compassiva.

Nos momentos em que caíamos, ela nos dava a mão. Erguendo-nos do chão e nos carregando no colo nos momentos mais difíceis da nossa jornada. Quando sentíamos medo, era a sua voz quem nos encorajava. Quando o frio enregelava nossas almas doentes, em seu manto ela nos abrigava, e nos curava. Quando nos tornávamos embrutecidas, era ela quem nos suavizava.

E mesmo assim, nós mulheres, que tínhamos o dever de manter a Grande Mãe em seu lugar de direito, a renegamos. Permitimos dentro das nossas fraquezas que o Patriarcado se impusesse. Aceitamos o jugo. Permitimos que o feminino fosse subjugado, castrado e dominado. O aspecto masculino passou a prevalecer. Com ele a degradação do planeta e o desequilíbrio humano.

Esquecemos que Ela é o "Sagrado Feminino" presente em cada uma de nós. Permitimos que Ela fosse deportada para as regiões sombrias do exílio.

A mãe sabia que um dia voltaria a fazer parte das nossas vidas. Ela tinha consciência do nosso re-despertar. Um dia suas filhas clamariam aos quatro cantos do mundo por sua presença. Porque a Deusa não é uma estrutura paralela ao Deus Pai. A Deusa é o Mundo e consequentemente a Mãe de Deus.

Hoje a Deusa, ressurge como a fênix. Reassume dia a dia o seu lugar de direito. Voltamos a cultuá-la. E a cultuamos em tudo aquilo que existe de belo na natureza. Volvemos novamente nossos os olhos repletos de gratidão a essa que é a nossa Mãe, sem nos esquecermos da sua contraparte o Deus.

É importante informar que o culto à Grande Mãe, ou Deusa Mãe, antecede todos os outros cultos de Deusas no antigo Egito e na Grécia.

A sua origem é remota. Perde-se no tempo. Deriva de uma cultura Matriarcal mais antiga. Muito mais antiga. Seu culto foi iniciado por algumas mulheres pertencentes a determinados Clãs que ainda viviam nas cavernas. Muito antes de conhecermos as deusas por essa atual profusão de nomes.

Ela é a "mãe" do Deus. Que por sua vez, é seu filho e seu amante.

Como Mãe do Universo, seus poderes são os de uma Deusa Tríplice. Essa Deusa carrega em si as características de amante, mãe, nutridora, vingadora e consoladora. Jovem, senhora e anciã. Senhora que rege tudo o que existe na Vida e Morte.

Ao longo do giro da Roda da Vida, a Deusa vai assumindo determinados aspectos que nos fazem perceber os movimentos da vida passando. A evolução da Natureza, e a nossa própria transformação.

Em cada uma das direções da Roda do Ano, nos deparamos com uma das faces da Deusa a nos impulsionar para uma nova tomada de consciência em nossas vidas.

No Solstício do Outono, por volta do dia 30/04 onde o ciclo se encerra e reinicia através de Samhain, no mundo dos Celtas, Morrighan, a Rainha Negra, a Senhora da Magia. Viúva capaz de compreender o sofrimento humano - e mãe, por carregar em seu ventre escuro seu futuro filho, como semente de Luz, nos obriga a olhar para o Sol Poente, em busca dos mistérios interiores. Contemplamos os lagos do Oeste.

No festival do fogo, celebramos o domínio das trevas.

A Deusa do outono pode ser Hécate. Do panteão Grego. Senhora da lua minguante; Rainha da noite e da magia, guardiã dos caminhos e senhora da sabedoria. Guardiã das encruzilhadas da vida. Senhora do mundo subterrâneo e dos mortos.

O que importa é que no Solstício do Outono, a Deusa se manifesta como consoladora dos mortos, e provedora de uma nova vida. Sejam eles "seres" ou "sonhos".

A Deusa caminha e entra no Solstício do Inverno, chamado de Yule por volta do dia 21/06. Assistimos a Regeneração da Terra. O tempo de mudanças. E o nascimento da criança Divina.

A Deusa assume a plenitude de seu aspecto de Mãe.

Nele, Cerridween enquanto Ventre do Tempo. - Senhora do caldeirão da sabedoria e da regeneração, nos obriga a olhar para o norte em busca da Luz nos Reinos Astrais. Resgatando os nossos sonhos e o desejo de "iniciar algo".

(neste sabbat, especificamente falando, a Deusa concede força e poder ao seu filho).

A deusa do Inverno pode assumir as características das Moiras - Deusas gregas. As que Tecem os destinos, determinando a vida e a morte dos homens, cortando o fio no momento certo. (como as tecelãs da vida da criança divina)

Prosseguindo no ciclo da vida, a Deusa caminha para Imbolc. O Equinócio do Inverno, por volta de 31/07. Onde celebramos o aumento da Luz e a derrota do Inverno. E, Brighid a Deusa do Fogo, noiva do Sol, nos obriga a olhar para o Sudeste em busca da Purificação e do cumprir das Promessas que fizemos a nós mesmos ou aos outros. Ela nos incita a "enterrar" as agruras do inverno, trabalhando a limpeza e a purificação. Somente assim estaremos prontos para ascender o fogo sagrado em nossos altares.

Aqui, Deus e Deusa são jovens, cheios de energia e promessas, e a natureza e a vida desabrocha.

A Deusa pode assumir os aspectos de Héstia. Deusa grega. Padroeira da lareira e da família. Guardiã do fogo sagrado.

O importante é orar a deusa, solicitando a cura de nossos males. Formulando novos planos e novos projetos.

No girar da roda da vida, a Deusa Dana caminha para o Equinócio da Primavera. Ostara, por volta do dia 21/09. E nós a seguimos em direção ao Leste. Onde as noites e os dias são iguais. O equinócio vernal festeja a ressurreição da luz, o aquecimento da terra, a germinação das sementes, o desabrochar da vegetação. A renovação da vida. O equilíbrio e a harmonia que devemos buscar em nós mesmos.

É o noivado dos Deuses. Eles se encontram em total e perfeito equilíbrio. As energias da luz e das trevas, masculina e feminina são iguais.

Dana, enquanto donzela abençoa e promove a fertilidade das plantas e da terra.

A deusa pode assumir os aspetos de Flora - Deusa romana da primavera, das flores, da alegria e dos prazeres da juventude. Deusa das sementes, das flores e dos frutos.

Mais um giro na roda da vida, e, a Deusa caminha para o nordeste, de encontro ao Solstício da Primavera, Beltane, por volta de 31/10. Aqui, ela é a Deusa Blodeweed. Senhora do amor.

Estamos diante do Auge da vitalidade e vigor. Prontos para o Casamento Sagrado, no qual Deus e Deusa abençoam a fertilidade humana e animal. Neste solstício é tempo dos nossos desejos se casarem com o prazer.

Nada impede que a Deusa assuma os aspectos de Afrodite - Deusa grega. Senhora do amor. Protetora das uniões legítimas. Padroeira do casamento.

Um outro passo. A Deusa se volta para o norte e caminha para se transformar em Ariannhord no Solstício do Verão, e realizar Litha por volta de 21/12. Onde a deusa se encontra com o Ápice e o Declínio do Sol na noite mais curta e o dia mais longo do ano.

Toda a natureza frutifica. A Deusa está grávida e o Deus começa a mudar sua face à medida que o sol se distancia e a luz enfraquece. Aqui somos convidados a encarar nossos medos, e a encontrar os meios que propiciem a regeneração.

Ariannhord pode ser vista como Rhea. - A Deusa primal, a Grande Mãe Terra, criadora de todos os seres, deusa da vegetação e dos novos ciclos. Filha de Gaia e Urano. Esposa de Cronos e mãe dos deuses gregos.

Os passos da Deusa a levam agora em direção ao Noroeste em busca do Equinócio do Verão. A morte do Sol, o tempo da espera, a primeira colheita que vem de Lammas por volta do dia 02/02. Ela assume o nome de Aine.

Este é o tempo da avaliação das nossas colheitas. Incluindo os sucessos e os fracassos. E Aine nos aconselha a busca do "conhecimento".

"Deus e Deusa presidem sobre a colheita, mas ele se sacrifica, morrendo, quando os grãos são colhidos".

Nada impede que a deusa de Lammas seja vista como Ceres - Deusa romana da fertilidade da terra. Guardiã da agricultura e dos cereais, bem como de todos os frutos da terra. Protetora das mulheres, da maternidade e da vegetação.

E a deusa caminha para o Oeste, indo de encontro ao Equinócio do Outono, para viver Mabom. Por volta de 21/03. Assumindo o nome de Cerridween.

Luz e trevas em equilíbrio. Trevas avançando. Armazenamento do que se colheu. Caminhamos para o tempo da Aridez, ou escassez.

A meta indicada pela deusa é o mergulho em busca da beleza interior.

Tempo de agradecer todos os frutos, - os doces ou os amargos provenientes dos aprendizados, sem pedir nada nesta ocasião. O tema é a gratidão à Mãe Terra, a nutridora. Podemos demonstrar nossa gratidão à mãe através de orações, oferendas e rituais. Voltando nossos pensamentos para a cura do planeta.

Tempo de recolhimento, introspecção e reavaliação pessoal.

Aqui a deusa pode ser vista como Perséfone, Deusa Grega - A senhora do mundo Avernal. A consoladora dos mortos. Rainha do mundo subterrâneo. Filha de Demeter e esposa de Hades. (Deusa, mãe das Fúrias).

Assim a roda da vida gira. A Deusa é uma e mil deusas ao mesmo tempo.

Podemos vê-la em muitas faces:

Como Gaia, ela é o ser primordial, a criadora da vida.

Enquanto Luna, ela é a Deusa Romana. - Reguladora dos meses e das estações do ano.

Como Yemanjá, ela é a Deusa ioruba. - Senhora do mar e da lua. Protetora das mulheres e das crianças.

Como Sekmet, ela é a Deusa Leoa. - A grande devoradora e curadora da essência da vida correndo nas veias dos homens. O sangue.

Como Deusa da vingança ela é Morrighan. - Em seu aspecto de senhora das fontes da vida a oeste.

Como Rhiannon ela é a Deusa dos encantamentos. - Senhora das cantigas dos pássaros das asas negras do leste.

Enquanto Isis, a mãe egípcia. - Ela é a grande feiticeira, a que tece os encantamentos. A que nos confere o poder do verbo. Senhora do céu, da terra, da lua, da vida e da morte.

Como Ariadne, ela é a que fia as estrelas da criação entre os mundos solar e lunar.

Enquanto Bastit, ela é a deusa gata da sedução. - Em seu aspecto de Senhora onde mescla-se com Afrodite da Sensualidade e Perséfone, Rainha do amor implícito na morte.

Como deusa da cura e da iluminação ela é Isis, Brigth e Astart.

E assim prosseguiremos ligando todas as Deusas em uma só Deusa.

Enquanto o Deus Cornudo é aquele que abre os portões da vida e da morte, o masculino, o aspecto ativo da natureza. O Deus do submundo.

Esta é a forma mais antiga do Deus que o planeta Terra possuí.

A contraparte feminina do Deus Cornudo, é a Deusa da Lua. A mais antiga da terra, é a Mãe primordial que tudo cria. O lado passivo e feminino da Natureza como Deusa do nascimento.

Em beltane, ela se veste de sensualidade e é então Bastit, a Deusa Gata do erotismo.

Perséfone, senhora dos encantos que seduz Hades - O Senhor da escuridão.

Ariannhord, a Deusa Lua. Aquela que seduz o senhor da matas verdes.

E desde o principio das Eras; Quem seduziu a quem?

Breve mito celta de Beltane:

Em Beltane, o homem deus, busca na mulher deusa o seu complemento físico e divino.

A Deusa, saí à procura do caçador em cada portal do reino. Rejeita alguns, aceita outros, porém, apenas um deles é o seu escolhido.

Ela então se transforma no cervo branco, que só se deixa ser pego pelo "verdadeiro" candidato a Campeão da Terra. O que foi escolhido pela Deusa por sua perfeição física e moral, e com habilidades para ser o rei, o Guardião da Terra, a Deusa Soberania.

A cabeça do servo branco é entregue à Deusa, que o recompensa tornando-se sua esposa, e para que a terra mantenha-se em equilíbrio e a vida germine, a Deusa Soberania deverá ser fecundada pelo campeão escolhido por ela, na cama de flores, de onde a vida emerge. Sempre.

Edna Vezzoni, DONA CORUJA


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